Sejam Bem Vindos!

Este blog foi criado para melhor interação com meus alunos do Ensino Médio, facilitando a comunicação, troca de infromações e conteúdos. Espero que seja útil a todos que se interessam pelos temas abordados.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O que é a aculturação?

massai-blanche casamento de uma europeia com um massai A aculturação diz respeito às modificações culturais resultantes dos contatos entre pessoas de duas sociedades diferentes. Esses contatos podem consistir em interacções diretas, provocadas por conquistas militares, colonização, emigração, atividades missionárias e até turismo. Mas podem também ser contatos indiretos através dos diversos meios de comunicação social (televisão, internet, cinema, jornais, etc.).
A aculturação é um fenômeno social constante, tanto no presente como no passado. As diversas sociedades não são estanques e influenciam-se umas às outras de diversos modos.
A aculturação parece assumir duas formas principais, havendo entre elas diversos graus intermédios.
A aculturação por destruição, quando uma sociedade consegue impor a sua cultura a outra sociedade e a cultura desta desaparece ou se torna residual.
A aculturação por assimilação, quando uma sociedade é influenciada pela cultura de outra sociedade mas não põe de lado a sua própria cultura. Essa influência constitui um enriquecimento, um alargamento do património cultural.

O que são ritos de passagem?

jovem da etnia yawalapiti se submete a ritual de passagemJovem da etnia yawalapiti (Alto Xingu, Brasil) submete-se a um ritual de passagem, em que a sua pele é arranhada com dentes de peixe até sangrar.  (Fotografia e informação obtidas aqui.)
Os ritos de passagem (ou de iniciação) são cerimônias que assinalam transições importantes no desenvolvimento do indivíduo e em que ocorre uma mudança de estatuto social. Por exemplo: os ritos ligados ao nascimento (como o batismo), os ritos da puberdade (a iniciação à condição de adulto), o casamento, ritos de integração em grupos específicos (nomeadamente as praxes nas escolas e nas Forças Armadas), ritos ligados à morte (como os funerais).
Vejamos com mais detalhe os ritos da puberdade. Estes assinalam o fim da infância e a entrada na maioridade (que por vezes tem várias fases), ou seja, o início da capacidade sexual e reprodutiva e o direito de desempenhar as funções próprias dos adultos. Essas cerimônias constituem uma iniciação na vida dos adultos. (Nalgumas sociedades não se reconhece a adolescência como um período diferenciado.)
Em muitas sociedades essa passagem para a condição de adulto é bastante dramatizada e é vista como uma grande mudança – como se a criança morresse e o adulto fosse outra pessoa. Muitas vezes chega-se ao ponto de atribuir um novo nome ao iniciado.
As características desses ritos dependem principalmente do estilo de vida do povo em causa e do sexo da pessoa iniciada, pois as provas incluídas nas cerimônias pretendem ser uma preparação para a vida e uma ocasião para o iniciado demonstrar as suas qualidades.
Por isso, quando se trata de um povo guerreiro (ou então um povo cuja sobrevivência depende de atividades, como a caça e a pesca, cujo exercício requer coragem, força e resistência) as provas exigidas aos iniciados são normalmente violentas e dolorosas.
Quando as atividades predominantes numa sociedade são mais “pacíficas”, como a agricultura, os ritos são normalmente menos violentos e menos exigentes.
Contudo, por vezes a violência e a exigência dos ritos deve-se a crenças religiosas e morais e é independente do estilo de vida. É por isso que nalgumas sociedades existem ritos de passagem femininos muito violentos e dolorosos (envolvendo, por exemplo, mutilações genitais).
Os ritos da puberdade, e outros ritos de passagem, simbolizam a aceitação por parte do indivíduo das crenças, costumes e normas comunitárias: ao submeter-se às provas ele dá o seu assentimento à tradição.
Esses ritos simbolizam também o reconhecimento social do indivíduo e a sua integração no grupo – dos homens, das mulheres, etc. É como se lhe dissessem: “agora és um de nós”, “agora podes viver (caçar, pescar, comer, conversar de igual para igual, casar, etc.) conosco”.
A repetição dos ritos e o fato de os iniciados de hoje serem os futuros iniciadores, reforçam a coesão do grupo e a sua identidade cultural coletiva.
Pertencer ao grupo, ser aceite pelos outros, partilhar essa identidade coletiva, é importante em termos psicológicos e ajuda a definir a identidade individual – ajuda a pessoa a saber quem é e a ser reconhecida pelos outros como tal. Sem isso, as pessoas normalmente sentem-se desenraizadas e “perdidas”.
Devido a essa necessidade de identificação e reconhecimento, em muitos ritos de iniciação são feitas marcas corporais características do grupo e que demonstram publicamente que aquele indivíduo dele faz parte: tatuagens, cicatrizes, dedos amputados, etc.
Nas modernas sociedades industrializadas continuam a existir ritos de passagem ou iniciação: batismo, casamento, entrega de diplomas, praxes, etc.
Mas não têm a importância social que têm em sociedades mais pequenas e “primitivas”: não envolvem toda a comunidade e têm um significado mais vago e muito menos força simbólica. Não têm quase nunca um caráter obrigatório. Por isso, não têm o poder integrador dos ritos de outras sociedades e são menos eficazes a promover a identidade coletiva e influenciam menos a identidade individual.
No caso dos ritos de puberdade isso é muito notório. Nas nossas sociedades a passagem da infância à idade adulta é muito gradual, pois pelo meio existe o longo período da adolescência, e não se faz através de um grande e simbólico rito de iniciação, embora existam pequenos ritos de iniciação ligados à entrada na escola (nomeadamente as praxes universitárias) e à celebração de alguns aniversários (nomeadamente os 18 anos, que permitem votar, tirar carta de condução, etc.).

Diversidade cultural e socialização

“A socialização é o processo através do qual as crianças, ou outros novos membros da sociedade, aprendem o modo de vida da sociedade em que vivem. Este processo constitui o principal canal de transmissão da cultura através do tempo e das gerações. (...)
A criança humana é a mais desamparada de todas as crias. Uma criança não consegue sobreviver sozinha e sem ajuda, pelo menos durante os primeiros quatro ou cinco anos de vida. A socialização é, portanto, o processo pelo qual as crianças indefesas se tornam gradualmente seres auto-conscientes, com saberes e capacidades, treinadas nas formas de cultura em que nasceram.”
Anthony Giddens, Sociologia, 5ª edição, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 2007, pp. 27 e 28.
Muitas aprendizagens feitas no processo de socialização são realizadas de modo informal e inconsciente. As pessoas aprendem sem perceber que estão a aprender. Aprendem enquanto vão vivendo as suas vidas. Adquirem conhecimentos, hábitos e valores enquanto brincam, conversam ou observam os outros. Brincar com aquelas bonecas contribuirá para as meninas aprenderem como é que na sua sociedade uma mulher se pode e deve vestir.
Mas, embora todos os seres humanos possuam cultura e a transmitam à geração seguinte, não possuem todos uma cultura igual. No planeta Terra existe uma enorme diversidade cultural: milhares de culturas diferentes, com hábitos, tradições e valores muito diversos. Assim, como as bonecas mostram, as meninas ocidentais e as meninas árabes adquirem hábitos e ideias bastante diferentes no que diz respeito ao modo como uma mulher se pode e deve vestir. E também no que diz respeito ao lugar que uma mulher pode e deve ocupar na sociedade.

O que vamos almoçar: larvas ou sardinhas?

larvas de bicho da seda cobras para comer
As larvas do bicho da seda e as cobras são pratos muito apreciados na China.

caldo verde Sardinhas Assadas

O caldo verde e as sardinhas assadas fazem parte dos pratos típicas de várias regiões portuguesas.
Uma das razões que leva a que na alimentação (tal como no vestuário) haja uma enorme diversidade cultural é o facto de as várias sociedades viverem em meios bastante diferentes em termos de clima, relevo, fauna e flora. A sua gastronomia reflecte o meio físico em que vivem. Depois entra em cena a socialização, para assegurar que quase todos os membros da sociedade acham deliciosos os alimentos disponíveis.
“Cada sociedade ensina os seus membros a salivar só a determinados géneros de alimentação. Um gafanhoto encorpado evoca respostas salivares na maioria dos bosquímanos africanos, mas só em poucos americanos.”

H. Kendler, Introdução à Psicologia, F. C.Gulbenkian.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

5 de Novembro – Dia da Cultura Brasileira


A cultura brasileira é tão diversa que não se pode falar dela em apenas um dia. Apesar disso, hoje foi escolhido para festejarmos as manifestações culturais de norte a sul e de leste a oeste.
O Brasil, como todos já sabem, é um país de formação multi-racial e por isso carrega um pouco do costume de cada povo que aqui veio morar. Dos negros, herdamos o candomblé, a capoeira, parte do nosso vocabulário e muito do nosso folclore. Dos índios, herdamos o artesanato, a pintura, comidas exóticas como o peixe na folha da bananeira e a rede. Do português, ficamos com o costume católico, a língua, as roupas.
Essa mistura toda não se deu de maneira pacífica, mas sim por meio da dominação cultural e da escravização de índios e negros. No entanto, características culturais de ambas etnias sobreviveram ao tempo e hoje compõe uma enorme riqueza cultural. Alguns estudiosos, como o escritor Sérgio Buarque de Holanda, acreditam que o fato de outras culturas permearem a cultura brasileira nos tornou “desterrados em nossa própria terra”. O movimento modernista da década de 20 mostrou a idéia de intelectuais que sentiam falta de um caráter estritamente nacional e que importava modelos sócio-culturais. O escritor Mário de Andrade construiu o personagem “Macunaíma” para retratar isso.
Independente da existência ou não de uma identidade nacional, o fato é que temos muito que comemorar hoje. Os costumes do povo brasileiro, seu folclore, suas comidas e suas músicas são neste sentido, grandes representantes das peculiaridades da cultura do país.
Folclore
O folclore brasileiro é recheado de lendas e mitos como o Saci-pererê, um menino de uma perna só que mora na floresta, usa um gorro vermelho e fuma cachimbo. Uma de suas travessuras mais comuns é emaranhar a crina dos cavalos de viajantes que acampam na floresta. Seu nome vem do tupi-guarani. Outras lendas como a da Mula-sem-cabeça, do Curupira, Iara Mãe D’Água, Boi Tatá, o Negrinho do Pastoreio e do Boto cor de rosa também são bastante conhecidas.
Música
A música estava presente no cotidiano do índio e do negro, relacionada tanto ao simples prazer quanto a rituais religiosos. As cantigas de roda infantis e as danças de quadrilhas são de origem francesa. Pela influência de vários povos e com a vinda de instrumentos estrangeiros (atabaques, violas, violão, reco-reco, cuíca e cavaquinho), inventamos o samba, o maracatu, o maxixe e o frevo. Inventamos também o axé, a moda de viola, que é a música do homem do interior, e o chorinho. Alguns movimentos musicais, como a Bossa Nova e a Tropicália, também foram importantes na formação musical brasileira.
Comida
Assim como em outras instâncias da nossa cultura, o índio, o negro e o branco fizeram essa miscelânea que é nossa tradição culinária. Aprendemos a fazer a farinha de mandioca com os índios e dela fazemos a tapioca, o beiju e também o mingau. A feijoada é fruto da adaptação do negro às condições adversas da escravidão, pois era feita com a sobra das carnes. O azeite de dendê também é uma grande contribuição africana à nossa culinária, pois com ele fazemos o acarajé e o abará. Os portugueses nos ensinaram técnicas de agricultura e de criação de animais. Deles, herdamos o costume de ingerir carne de boi e porco, além de aprendermos a fabricar doces, conservas, queijos, defumados e bebidas.

Fonte: http://www.brasilcultura.com.br/sociologia/5-de-novembro-dia-da-cultura-brasileira/

domingo, 2 de outubro de 2011

A globalização e a diversidade cultural


por Paula Villela,
jornalista


Nos últimos anos, o assunto globalização já foi discutido e analisado sob vários ângulos. É inegável então, que não seja apenas um fenômeno econômico, vindo a abranger também a cultura e a política. Essa última tem sua dimensão refletida no estabelecimento de instituições como a Organização Mundial de Comércio. Mas como vem sendo refletida a diversidade cultural no Brasil e no mundo?
Os perigos da cultura ser considerada como produto
Segundo faz questão de lembrar o presidente do Programa Sociedade da Informação do Brasil, Tadao Takahashi, no texto “Diversidade Cultural e Direito à Comunicação”, “o primeiro item de pauta de exportações dos EUA atualmente não é manufaturados, mas de cultura e entretenimento”. Esse fator é positivo para a economia e, ao mesmo tempo, representa uma grande preocupação para as sociedades futuras e as culturas não-centrais. Afinal, a expansão da globalização se deve, principalmente, aos recursos oferecidos pelas tecnologias de informação, em especial à Internet que é produzida e pensada, de forma industrial e massiva, por países considerados potencias, que acabam impondo a sua cultura.
O principal fator que reflete isso é a língua. De acordo com os estudos de Takahashi, uma língua deixa de existir a cada duas semanas e a estimativa é de que 90% das línguas existentes tenham desaparecido ao longo do século XXI. Pode-se comparar, então, a diversidade cultural com a diversidade biológica: as duas correm risco de extinção. Porém, assim como o desenvolvimento sustentável - ou seja, a geração atual, tomando cuidado com o consumo e produção de forma a não comprometer a vida das gerações futuras - é uma alternativa para o cuidado com a diversidade biológica, paradoxalmente, as tecnologias de informação também podem colaborar na comunicação e na conseqüente preservação de culturais regionais, locais.
Como as tecnologias de comunicação podem colaborar
Segundo Takahashi, “o ato da comunicação está no cerne da globalização e da sustentação da diversidade cultural. É na comunicação que o indivíduo expressa sua identidade, opiniões e intenções, e as confronta com outros indivíduos oriundos de contexto culturais distintos”. É através dela também que a própria cultura é disseminada e aprendida, tornando as tecnologias de informação - que ampliam esses contatos - ferramentas indispensáveis na educação de pessoas que não possuíram acesso a dados culturais de seu país.
Porém, essa não é uma tarefa simples, já que grande parte da população foi alfabetizada. “Para exercer o direito a livre-expressão, em princípio o único requisito é dominar a língua que os (potenciais) destinatários da comunicação compreendem”, constatou Takahashi. Seja essa língua falada, escrita ou de costumes - como é o caso da linguagem informática.
Foi pensando em garantir essa capacitação, além de articular iniciativas que abranjam os três espaços lingüísticos e os países envolvidos, que foi criada a Cúpula Mundial da Sociedade de Informação (CMSI). De acordo com Tadao, a WSIS tem como iniciativas a “promoção de instrumento internacional de proteção à diversidade cultural”, permitindo o governo a implementar políticas culturais próprias, porém integradas às políticas internacionais; “o registro digital das línguas ameaçadas de extinção”; e o desenvolvimento de ferramentas e técnicas para a tradução automática de textos e programas, e a criação de interfaces facilitadoras.
Providências tomadas no Brasil e no mundo
E é baseado no primeiro item que algumas providências ao redor do mundo têm sido tomadas, visando a preservação da cultura local. Entretanto, muitos projetos ainda esbarram em interesses econômicos e políticos, que impedem o seu desenrolar. No Brasil, esse é o caso em que se encontra a Lei da Câmara 59/03, de autoria da deputada Jandira Feghali, que regulamenta o artigo 221 da Constituição Federal. Há 13 anos tramitando no Congresso, o projeto sobre a regionalização da programação cultural, artística e jornalística de rádio e televisão, continua em discussão, sem que se conseguisse um consenso.
Enquanto algumas entidades e a sociedade civil pedem para que seja revista a programação massiva da mídia eletrônica brasileira, as empresas de Comunicação alegam ser esse um processo extremamente dispendioso. Além disso, o projeto que propõe produção local para 30% da programação do horário de 7h a 23h é generalista e não leva em consideração a diferenciação no porte das empresas de radiodifusão existentes no país.
Para Takahashi, não bastam apenas declarações e planos de ações para a preservação da diversidade cultural, pois “ <<a vida real>> pode caminhar mais rápido e gerar resultados questionáveis irreversíveis”. É preciso então, antes de tudo, conscientização e pressa, para que a humanidade faça da globalização um instrumento de congregação de culturas e não a segregação da mesma.

Você tem cultura?

Roberto Da Matta


Outro dia ouvi uma pessoa dizer que “Maria não tinha cultura”, era “ignorante dos fatos básicos da política, economia e literatura”. Uma semana depois, no Museu onde trabalho, conversava com alunos sobre “a cultura dos índios Apinayé de Goiás”, que havia estudado de 1962 até 1976, quando publiquei um livro sobre eles (Um mundo dividido). Refletindo sobre os dois usos de uma mesma palavra, decidi que esta seria a melhor forma de discutir a idéia ou o conceito de cultura tal como nós, estudantes da sociedade a concebemos. Ou, melhor ainda, apresentar algumas noções sobre a cultura e o que ela quer dizer, não como uma simples palavra, mas como uma categoria intelectual um conceito que pode nos ajudar a compreender melhor o que acontece no mundo em nossa volta.
Retomemos os exemplos mencionados porque eles encerram os dois sentidos mais comuns da palavra. No primeiro, usa-se cultura como sinônimo de sofisticação, de sabedoria, de educação no sentido restrito do termo. Quer dizer, quando falamos que “Maria não tem cultura”, e que “João é culto”, estamos nos referindo a um certo estado educacional destas pessoas, querendo indicar com isto sua capacidade de compreender ou organizar certos dados e situações. Cultura aqui é equivalente a volume de leituras, a controle de informações, a títulos universitários e chega até mesmo a ser confundido com inteligência, como se a habilidade para realizar certas operações mentais e lógicas (que definem de fato a inteligência), fosse algo a ser medido ou arbitrado pelo número de livros que uma pessoa leu, as línguas que pode falar, ou ao quadros e pintores que pode, de memória, enumerar. Como uma espécie de prova desta associação, temos o velho ditado informando que “cultura não traz discernimento”... ou inteligência, como estou discutindo aqui. Neste sentido, cultura é uma palavra usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma arma discriminatória contra algum sexo, idade (“as gerações mais novas são incultas”), etnia (“os pretos não tem cultura”) ou mesmo sociedades inteiras, quando se diz que “os franceses são cultos e civilizados” em oposição aos americanos que são “ignorantes e grosseiros”. Do mesmo modo é comum ouvir-se referências à humanidade, cujos valores seguem tradições diferentes e desconhecidas, como a dos índios, como sendo sociedades que estão “na Idade da Pedra” e se encontram em “estágio cultural muito atrasado”. A palavra cultura, enquanto categoria do senso comum ocupa como vemos um importante lugar no nosso acervo conceitual, ficando lado-a-lado de outras, cujo uso na vida cotidiana é também muito comum. Estou me lembrando da palavra “personalidade” que, tal como ocorre com a palavra “cultura”, penetra o nosso vocabulário com dois sentidos bem diferenciados. No campo da Psicologia, personalidade define o conjunto dos traços que caracterizam todos os seres humanos. É aquilo que singulariza todos e cada um de nós como uma pessoa diferente, com interesses, capacidades e emoções particulares. Mas na vida diária, personalidade é usada como um marco para algo desejável e invejável de uma pessoa.
Assim, certas pessoas teriam “personalidade" outras não! É comum se dizer que "João tem personalidade” quando de fato se quer indicar que "João tem magnetismo", sendo uma pessoa "com presença". Do mesmo modo, dizer que "João não tem personalidade", quer apenas dizer que ele não é uma pessoa atraente ou inteligente.
Mas no fundo, todos temos personalidade, embora nem todos possamos ser pessoas belas ou magnetizadoras como um artista da Novela das Oito. Mesmo urna pessoa "sem personalidade" tem, paradoxalmente, personalidade na medida em que ocupa um espaço social e físico e tem desejos e necessidades. Pode ser uma pessoa sumamente apagada, mas ser assim é precisamente o traço marcante de sua personalidade.
No caso do conceito de cultura ocorre o mesmo, embora nem todos saibam disso. De fato, quando um antropólogo social fala em "cultura", ele usa a palavra como um conceito chave para a interpretação da vida social. Porque para nós ''cultura" não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia de "civilização" mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa. Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas.
É justamente porque compartilham de parcelas importantes deste código (a cultura) que um conjunto de indivíduos com interesses e capacidades distintas e até mesmo opostas, transformam-se num grupo e podem viver juntos sentindo-se parte de uma mesma totalidade. Podem, assim, desenvolver relações entre si porque a cultura lhes forneceu normas que dizem respeito aos modos, mais (ou menos) apropriados de comportamento diante de certas situações. Por outro lado, a cultura não é um código que se escolhe simplesmente. É algo que está dentro e fora de cada um de nós, como as regras de um jogo de futebol, que permitem o entendimento do jogo e, também, a ação de cada jogador, juiz, bandeirinha e torcida.
Quer dizer, as regras que formam a cultura (ou a cultura como regra) é algo que permite relacionar indivíduos entre si e o próprio grupo com o ambiente onde vivem. Em geral, pensamos a cultura como algo individual que as pessoas inventam, modificam e acrescentam na medida de sua criatividade e poder. Daí falarmos que Fulano é mais culto que Sicrano e distinguirmos formas de "cultura" supostamente mais avançadas ou preferidas que outras. Falamos então em "alta cultura'' e "baixa cultura" ou “cultura popular", preferindo naturalmente as formas sofisticadas que se confundem com a própria idéia de cultura. Assim, teríamos a cultura e culturas particulares e adjetivadas.(popular, indígena, nordestina, de classe baixa, etc.) como formas secundárias, incompletas e inferiores de vida social.
Mas a verdade é que todas as formas culturais ou todas as "sub-culturas” de uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam algum aspecto importante que não pode ser esgotado completamente por uma outra "sub-cultura". Quer dizer, existem gêneros de cultura que são equivalentes a diferentes modos de sentir, celebrar, pensar e atuar sobre o mundo e esses gêneros podem estar associados a certos segmentos sociais. 0 problema é que sempre que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e de pensamento diferente, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, que é uma: forma de excluí-la. Um outro modo de perceber e enfrentar a diferença cultural é tomar a diferença como um desvio, deixando de buscar seu papel numa totalidade.
Desta forma, podemos ver o carnaval como algo desviante de uma festa religiosa, sem nos darmos conta de que as festas religiosas e o carnaval guardam uma profunda relação de complementaridade. Realmente, se no terreno da festa religiosa somos marcados pelo mais profundo comedimento e respeito pelo foco no "outro mundo” é porque no carnaval podemos nos apresentar realizando o justo oposto.
Assim, o carnavalesco e o religioso não podem ser classificados em termos de superior ou inferior ou como articulados a uma. "cultura autêntica" e superior, mas devem ser vistos nas suas relações que são complementares. O que significa dizer que tanto há cultura no carnaval quanto na procissão e nas festas cívicas, pois que cada uma delas é um código capaz de permitir um julgamento e uma atuação sobre o mundo social no Brasil. Como disse uma vez, essas festas nos revelam leituras da sociedade brasileira por nós mesmos e é nesta direção que devemos discutir o conteúdo e a. forma de cada cultura ou sub-cultura em uma sociedade (veja-se o meu livro, Carnavais; Malandros e Heróis).
No sentido antropológico, portanto, a cultura é um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado. Ela, como os textos teatrais, não pode prever completamente como iremos nos sentir em cada papel que devemos ou temos necessariamente que desempenhar, mas indica maneiras gerais e exemplos de como pessoas que viveram antes de nós os desempenharam. Mas isso não impede, conforme sabemos, emoções. Do mesmo modo que um jogo de futebol com suas regras fixas não impede renovadas emoções em cada jogo.
É que as regras apenas indicam os limites e apontam os elementos e suas combinações explícitas. O seu funcionamento e, sobretudo, o modo pelo qual elas engendram novas combinações em situações concretas é algo que só a realidade pode dizer. Porque embora cada cultura contenha um conjunto finito de regras, suas possibilidades de atualização, expressão e reação em situações concretas, são infinitas.
Apresentada assim, a cultura parece ser um bom instrumento para compreender as diferenças entre os homens e as sociedades. Elas não seriam dadas, de uma vez por todas, por meio de um meio geográfico ou de uma raça, como diziam os estudiosos do passado, mas em diferentes configurações ou relações que cada sociedade estabelece no decorrer de sua história. Mas é importante acentuar que a base destas configurações, é sempre um repertório comum de potencialidades. Algumas sociedades desenvolveram algumas dessas potencialidades mais e melhor do que outras, mas isso não significa que elas sejam mais pervertidas ou mais adiantadas. O que isso parece indicar é, antes de mais nada, o enorme potencial que cada cultura encerra, como elemento plástico, capaz de receber as variações e motivações dos seus membros, bem como os desafios externos. Nosso sistema caminhou na direção de um poderoso controle sobre a natureza, mas isso é apenas um traço entre muitos outros. Há sociedades na Amazônia onde o controle da natureza é muito pobre, mas onde existe urna enorme sabedoria relativa ao equilíbrio entre os homens e os grupos cujos interesses são divergentes. O respeito pela vida que todas as sociedades indígenas nos apresentam, de modo tão vivo, pois que os animais são seres incluídos na formação e discussão de sua moralidade e sistema político, parece se constituir não em exemplo de ignorância e indigência lógica, mas em verdadeira lição, pois respeitar a vida deve certamente incluir toda a vida e não apenas a vida humana. Hoje estamos mais conscientes do preço que pagamos pela exploração desenfreada do mundo natural sem a necessária moralidade que nos liga inevitavelmente às plantas, aos animais, aos rios e aos mares.
Realmente, pela escala destas sociedades tribais, somos uma sociedade de bárbaros, incapazes de compreender o significado profundo dos elos que nos ligam com todo o mundo em escala global. Pois é assim que pensam os índios e por isso que as suas histórias são povoadas de animais que falam e homens que se transformam em animais. Conosco, são as máquinas que tomam esse lugar...
O conceito de cultura, ou, a cultura como conceito, então, permite uma perspectiva mais consciente de nós mesmos. Precisamente porque diz que não há homens sem cultura e permite comparar culturas e configurações culturais como entidades iguais, deixando de estabelecer hierarquias em que inevitavelmente existiriam sociedades superiores e inferiores. Mesmo diante de formas culturais aparentemente irracionais, cruéis ou pervertidas, existe o homem a entendê-las – ainda que seja para evitá-las, como fazemos com o crime - é uma tarefa inevitável que faz parte da condição de ser humano e viver num universo marcado e demarcado pela cultura. Em outras palavras, a cultura permite traduzir melhor a diferença entre nós e os outros e, assim fazendo, resgatar a nossa humanidade no outro e a do outro em nós mesmos. Num mundo como o nosso, tão pequeno pela comunicação em escala planetária, isso me parece muito importante. Porque já não se trata somente de fabricar mais e mais automóveis, conforme pensávamos em 1950, mas desenvolver nossa capacidade para enxergar melhores caminhos para os pobres, os marginais e os oprimidos. E isso só se faz com uma atitude aberta para as formas e configurações sociais que, como revela o conceito de cultura, estão dentro e fora de nós.
Num país como o nosso, onde as formas hierarquizantes de classificação cultural sempre foram dominantes, onde a elite sempre esteve disposta a autoflagelar-se dizendo que não temos uma cultura, nada mais saudável do que esse exercício antropológico de descobrir que a fórmula negativa - esse dizer que não temos cultura é, paradoxalmente, um modo de agir cultural que deve ser visto, pesado e talvez substituído por uma fórmula mais confiante no nosso futuro e nas nossas potencialidades.