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Este blog foi criado para melhor interação com meus alunos do Ensino Médio, facilitando a comunicação, troca de infromações e conteúdos. Espero que seja útil a todos que se interessam pelos temas abordados.

quarta-feira, 2 de março de 2016

A TEORIA DO CONHECIMENTO

A teoria do conhecimento tem por objetivo buscar a origem, a natureza, o valor e os limites do conhecimento, da faculdade de conhecer.

Às vezes o termo é usado ainda como sinônimo  de epistemologia, o que não é exato, pois a mesma é mais ampla, abrangendo todo tipo de conhecimento, enquanto que a epistemologia limita-se ao estudo sistemático do conhecimento científico, sendo por isso mesmo chamada de filosofia da ciência.
 
A necessidade de procurar explicar o mundo dando-lhe um sentido e descobrindo-lhe as leis ocultas é tão antiga como o próprio Homem, que tem recorrido para isso quer ao auxílio da magia, do mito e da religião, quer, mais recentemente, à contribuição da ciência e da tecnologia.
Mas é sobretudo nos últimos séculos da nossa História, que se tem dado a importância crescente aos domínios do conhecimento e da ciência. E se é certo que a preocupação com este tipo de questões remonta já à Grécia antiga, é porém a partir do séc. XVIII que a palavra ciência adquire um sentido mais preciso e mais próximo daquele que hoje lhe damos.
É também sobretudo a partir desta época que as implicações da atividade científica na nossa vida quotidiana se têm tornado tão evidentes, que não lhe podemos ficar indiferentes. O que é o conhecimento científico, como se adquire, o que temos implícito quando dizemos que conhecemos determinado assunto, em que consiste a prática científica, que relação existe entre o conhecimento científico e o mundo real, quais as consequências práticas e éticas das descobertas científicas, são alguns dos problemas com que nos deparamos frequentemente.
Diante desses questionamentos, este trabalho pretende fazer um apanhado geral acerca da Teoria do Conhecimento, suas correntes e representantes, de modo que se torne mais fácil a sua compreensão.
 

Conceito

A teoria do conhecimento, se interessa pela investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes. O que é o conhecimento? Como nós o alcançamos? Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio cético?
Essas questões são, implicitamente, tão velhas quanto a filosofia. Mas, primordialmente na era moderna, a partir do século XVII em diante – como resultado do trabalho de Descartes (1596-1650) e Jonh Locke (1632-1704) em associação com a emergência da ciência moderna – é que ela tem ocupado um plano central na filosofia.
Basicamente é conceituada como o estudo de assuntos que outras ciências não conseguem responder e se divide em quatro partes, sendo que três delas possuem correntes que tentam explica-las: I – O conhecimento como problema, II – Origem do Conhecimento e III – Essência do Conhecimento e IV – Possibilidade do Conhecimento. 
Veja abaixo as principais correntes e seus representantes:

A) O Conhecimento Quanto à Origem

A polêmica racionalismo-empirismo tem sido uma das mais persistentes ao longo da história da filosofia, e encontra eco ainda hoje em diversas posições de epistemólogos ou filósofos da ciência. Abundam, ao longo da linha constituída nos seus extremos pelo racionalismo e pelo empirismo radicais, as posições intermédias, as tentativas de conciliação e de superação, como veremos a seguir.

• Empirismo

“O empirismo pode ser definido como a asserção de que todo conhecimento sintético é baseado na experiência.” (Bertrand Russell).
Conceitua-se empirismo, como a corrente de pensamento que sustenta que a experiência sensorial é a origem única ou fundamental do conhecimento.
Originário da Grécia Antiga, o empirismo foi reformulado através do tempo na Idade Média e Moderna, assumindo várias manifestações e atitudes, tornando-se notável as distinções e divergências existentes. Porém, é notório que existem características fundamentais, sem as quais se perde a essência do empirismo e a qual, todos os autores conservam, que é a tese de que todo e qualquer conhecimento sintético haure sua origem na experiência e só é válido quando verificado por fatos metodicamente observados, ou se reduz a verdades já fundadas no processo de pesquisa dos dados do real, embora, sua validade lógica possa transcender o plano dos fatos observados.
Como já foi dito anteriormente, existe no empirismo divergência de pensamentos, e é exatamente esse aspecto que abordaremos a seguir. São três, as linhas empíricas, sendo elas: a integral, a moderada e a científica.
O empirismo integral reduz todos os conhecimentos – inclusive os matemáticos – à fonte empírica, àquilo que é produto de contato direto e imediato com a experiência. Quando a redução é feita à mera experiência sensível, temos o sensismo (ou sensualismo). É o caso de John Stuart Mill, que na obra Sistema da Lógica diz que todos os conhecimentos científicos resultam de processos indutivos, não constituindo exceção as verdades matemáticas, que seriam resultado de generalizações a partir de dados da experiência. Ele apresenta a indução como único método científico e afirma que nela resolvem-se tanto o silogismo quanto os axiomas matemáticos.
O empirismo moderado, também denominado genético-psicológico, explica que a origem temporal dos conhecimentos parte da experiência, mas não reduz a ela a validez do conhecimento, o qual pode ser não-empiricamente valido (como nos casos dos juízos analíticos). Uma das obras baseadas nessa linha é a de John Locke (Ensaios sobre o Entendimento Humano), na qual ele explica que as sensações são ponto de partida de tudo aquilo que se conhece. Todas as idéias são elaborações de elementos que os sentidos recebem em contato com a realidade.
Como já foi dito, para os moderados há verdades universalmente validas, como as matemáticas, cuja validez não assenta na experiência, e sim no pensamento. Na doutrina de Locke, existe a admissão de uma esfera de validade lógica a priori e, portanto não empírica, no que concerne aos juízos matemáticos.
Por fim, há o empirismo científico, que admite como válido, o conhecimento oriundo da experiência ou verificado experimentalmente, atribuindo aos juízos analíticos significações de ordem formal enquadradas no domínio das fórmulas lógicas. Esta tendência está longe de alcançar a almejada “unanimidade cientifica”.

• Racionalismo

É a corrente que assevera o papel preponderante da razão no processo cognoscitivo, pois, os fatos não são fontes de todos os conhecimentos e não nos oferecem condições de “certeza”.
Um dos grandes representantes do racionalismo, Gottfried Leibniz, afirma em sua obra Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, que nem todas as verdades são verdades de fato; ao lado delas, existem as verdades de razão, que são aquelas inerentes ao próprio pensamento humano e dotadas de universalidade e certeza (como por exemplo, os princípios de identidade e de razão suficiente), enquanto as verdades de fato são contingentes e particulares, implicando sempre a possibilidade de correção, sendo válidas dentro de limites determinados.
Ainda retratando o pensamento racionalista, encontramos Reneé Descartes, adepto do inatismo, que afirma que somos todos possuidores, enquanto seres pensantes, de uma série de princípios evidentes, idéias natas, que servem de fundamento lógico a todos os elementos com que nos enriquecem a percepção e a representação, ou seja, para ele, o racionalismo se preocupa com a idéia fundante que a razão por si mesma logra atingir.
Esses dois pensadores podem ser classificados como representantes do racionalismo ontológico, que consiste em entender a realidade como racional, ou em racionalizar o real, de maneira que a explicação conceitual mais simples, se tenha em conta da mais simples e segura explicação da realidade.
Existe também uma outra linha racionalista, originada de Aristóteles, denominada intelectualismo, que reconhece a existência de “verdades de razão” e, além disso, atribui à inteligência função positiva no ato de conhecer, ou seja, a razão não contém em si mesma, verdades universais como idéias natas, mas as atinge à vista dos fatos particulares que o intelecto coordena. Concluindo: o intelecto extrai os conceitos ínsitos no real, operando sobre as imagens que o real oferece.
Hessen, um dos adeptos do intelectualismo, lembra que há nele uma concepção metafísica da realidade como condição de sua gnoseologia, que é conceber a realidade como algo de racional, contendo no particularismo contingente de seus elementos, as verdades universais que o intelecto “lê” e “extrai”, realizando-se uma adequação plena entre o entendimento e a realidade, no que esta tem de essencial.
Por fim, devemos citar uma ramificação do racionalismo que alguns autores consideram autônoma, que é o Criticismo.
O criticismo é o estudo metódico prévio do ato de conhecer e dos modos de conhecimento, ou seja, uma disposição metódica do espírito no sentido de situar, preliminarmente o problema do conhecimento em função da relação “sujeito-objeto”, indagando as suas condições e pressupostos. Ele aceita e recusa certas afirmações do empirismo e racionalismo, por isso, muitos autores acreditam em sua autonomia. Entretanto, devemos entender tal posição como uma análise crítica e profunda dos pressupostos do conhecimento.
Seu maior representante, Immanuel Kant, tem como marca a determinação a priori das condições lógicas das ciências. Ele declara que o conhecimento não pode prescindir da experiência, a qual fornece o material cognoscível e nesse ponto coincide com o empirismo. Porém, sustenta também que o conhecimento de base empírica não pode prescindir de elementos racionais, tanto que só adquire validade universal quando os dados sensoriais são ordenados pela razão. Segundo palavras do próprio autor, “os conceitos sem as intuições são vazios; as intuições sem os conceitos são cegas”.
Para ele, o conhecimento é sempre uma subordinação do real à medida do humano.
Conclui-se então, que pela ótica do criticismo, o conhecimento implica sempre numa contribuição positiva e construtora por parte do sujeito cognoscente em razão de algo que está no espírito, anteriormente à experiência do ponto de vista gnosiológico.

B) O Conhecimento Quanto à Essência

Nessa parte do estudo, analisaremos o ponto da Teoria do Conhecimento em que há mais divergências, sendo estas fundamentais pra o pleno conhecimento do assunto, que é o realismo e o idealismo.

• Realismo

Sabendo que a palavra realismo vem do latim res (coisa), podemos conceituar essa corrente como a orientação ou atitude espiritual que implica uma preeminência do objeto, dada a sua afirmação fundamental de que nós conhecemos coisas. Em outras palavras, é a independência ontológica da realidade, ou seja, o sujeito em função do objeto.
O realismo é subdividido em três espécies. O realismo ingênuo, o tradicional e o crítico.

O realismo ingênuo, também conhecido como pré-filosófico, é aquele em que o homem aceita a identidade de seu conhecimento com as coisas que sua mente menciona, sem formular qualquer questionamento a respeito de tal coisa. É a atitude do homem comum, que conhece as coisas e as concebem tais e quais aparecem.
Já o realismo tradicional é aquele em que há uma indagação a respeito dos fundamentos, há uma procura em demonstrar se as teses são verdadeiras, surgindo uma atitude propriamente filosófica, seguindo a linha aristotélica.
Por último, podemos citar o realismo cientifico, que é a linha do realismo que acentua a verificação de seus pressupostos concluindo pela funcionalidade sujeito-objeto e distinguindo as camadas conhecíveis do real como a participação – não apenas criadora –  do espírito no processo gnosiológico. Para os seguidores desse pensamento, conhecer é sempre conhecer algo posto fora de nós, mas que, se há conhecimento de algo, não nos é possível verificar se o objeto – que nossa subjetividade compreende – corresponde ou não ao objeto tal qual é em si mesmo.
Há portanto, no realismo, uma tese ou doutrina fundamental de que existe uma correlação ou uma adequação da inteligência a “algo” como objeto do conhecimento, de maneira que nós conhecemos quando a nossa sensibilidade e inteligência se conformam a algo de exterior a nós. De acordo com o modo de compreender-se essa “referibilidade a algo”, bifurca-se o realismo em tradicional e o crítico, que são as duas linhas pertinentes à filosofia.

• Idealismo

Surgiu na Grécia Antiga com Platão, denominado de idealismo transcendente, onde as idéias ou arquétipos ideais representam a realidade verdadeira, da qual seriam as realidades sensíveis, meras copias imperfeitas, sem validade em si mesmas, mas sim enquanto participam do ser essencial. O idealismo de Platão reduz o real ao ideal, resolvendo o ser em idéia, pois como ele já dizia, as idéias são o sol que ilumina e torna visíveis as coisas.
Alguns autores entendem que a doutrina platônica poderia ser vista como uma forma de realismo, pois para eles, o idealismo “verdadeiro” é aquele desenvolvido a partir de Descartes.
O que interessa à Teoria do Conhecimento, é o idealismo imanentista, que afirma que as coisas não existem por si mesmas, mas na medida e enquanto são representadas ou pensadas, de maneira que só se conhece aquilo que se insere no domínio de nosso espírito e não as coisas como tais, ou seja, há uma tendência a subordinar tudo à formas espirituais ou esquemas. No idealismo, que é a compreensão do real como idealidade (o que equivale dizer a realidade como espírito), o homem cria um objeto com os elementos de sua subjetividade, sem que algo preexista ao objeto (no sentindo gnosiológico).
Sintetizando, o idealismo é a doutrina ou corrente de pensamento que subordina ou reduz o conhecimento à representação ou ao processo do pensamento mesmo, por entender que a verdade das coisas está menos nelas do que em nós, em nossa consciência ou em nossa mente, no fato de serem “percebidas” ou “pensadas”.
Dentro dessa concepção existem duas orientações idealistas. Uma é a do idealismo psicológico ou conscienciológico, onde o que se conhece não são as coisas e sim a imagem delas. Podemos conceituá-lo como aquele em que a realidade é cognoscível se e enquanto se projeta no plano da consciência, revelando-se como momento ou conteúdo de nossa vida interior. Também chamado de idealismo subjetivo, este diz que o homem não conhece as coisas, e sim a representação que a nossa consciência forma em razão delas. Seus representantes são Hume, Locke e Berkeley.
A outra é a orientação idealista de natureza lógica, que parte da afirmação de que só conhecemos o que se converte em pensamento, ou é conteúdo de pensamento. Ou seja, o ser não é outra coisa senão idéia.
Seu maior representante, Hegel, diz em uma de suas obras que nós só conhecemos aquilo que elevamos ao plano do pensamento, de maneira que só há realidade como realidade espiritual.
Resumindo: na atitude psicológica, ser é ser percebido e na atitude lógica, ser é ser pensado.

C) Possibilidade do Conhecimento

Essa parte da teoria do conhecimento é responsável por solucionar a seguinte questão: qual a possibilidade do conhecimento?
Para que seja possível respondê-la, muitos autores recorrem a duas importantes posições: o dogmatismo e o ceticismo, os quais veremos abaixo.

• Dogmatismo

É a corrente que se julga em condições de afirmar a possibilidade de conhecer verdades universais quanto ao ser, à existência e à conduta, transcendendo o campo das puras relações fenomenais e sem limites impostos a priori à razão.
Existem duas espécies de dogmatismo: o total e o parcial.

O primeiro é aquele em que a afirmação da possibilidade de se alcançar a verdade ultima é feita tanto no plano da especulação, quanto no da vida pratica ou da Ética. Esse dogmatismo intransigente, quase não é adotado, devido à rigorosidade de adequação do pensamento. Porém, encontramos em Hegel a expressão máxima desse tipo de dogmatismo, pois, existe em suas obras uma identificação absoluta entre pensamento e realidade. Como o próprio autor diz “o pensamento, na medida em que é, é a coisa em si, e a coisa em si, na medida em que é, é o pensamento puro”.
Já o parcial, adotado em maior extensão, tem um sentido mais atenuado, na intenção de afirmar-se a possibilidade de se atingir o absoluto em dadas circunstâncias e modos quando não sob certo prisma. Ou seja, é a crença no poder da razão ou da intuição como instrumentos de acesso ao real em si.
Alguns dogmáticos parciais se julgam aptos para afirmar a verdade absoluta no plano da ação. Entretanto, outros somente admitem tais verdades no plano especulativo. Daí origina-se a distinção entre dogmatismo teórico e dogmatismo ético.
O dogmatismo ético tem como adeptos Hume e Kant, que duvidavam da possibilidade de atingir as verdades últimas enquanto sujeito pensante (homo theoreticus) e afirmavam as razões primordiais de agir, estabelecendo as bases de sua Ética ou de sua Moral.
Por conseguinte, temos como adepto do dogmatismo teórico, Blaise Pascal, que não duvidava de seus cálculos matemáticos e da exatidão das ciências enquanto ciências, mas era assaltado por duvidas no plano do agir ou da conduta humana.

• Ceticismo

Consiste numa atitude dubitativa ou uma provisoriedade constante, mesmo a respeito de opiniões emitidas no âmbito das relações empíricas. Essa atitude nunca é abandonada pelo ceticismo, mesmo quando são enunciados juízos sobre algo de maneira provisória, sujeitos a refutação à luz de sucessivos testes.
Ou seja, o ceticismo se distingue das outras correntes por causa de sua posição de reserva e de desconfiança em relação às coisas.
Há no ceticismo – assim como no dogmatismo – uma distinção entre absoluto e parcial, ressaltando que este último não será discutido nesse trabalho.
O ceticismo absoluto é oriundo da Grécia e também denominado pirronismo. Prega a necessidade da suspensão do juízo, dada a impossibilidade de qualquer conhecimento certo. Ele envolve tanto as verdades metafísicas (da realidade em si mesma), quanto as relativas ao fundo dos fenômenos. Segundo essa corrente, o homem não pode pretender nenhum conhecimento por não haver adequação possível entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Ou seja, para os céticos absolutos, não há outra solução para o homem senão a atitude de não formular problemas, dada a equivalência fatal de todas as respostas.
Um dos representantes do ceticismo de maior destaque na filosofia moderna é Augusto Comte.

Resumo dos principais problemas da Teoria do Conhecimento

  • A questão do conhecimento: Para compreender a si mesmo e o mundo os homens querem entender a sua própria capacidade de entender.
  • Sujeito e objeto: Os dois elementos do processo de conhecimento – Conhecer é representar cuidadosamente o que é exterior à mente. Para que exista conhecimento, sempre será necessária a relação entre dois elementos básicos: Um sujeito conhecedor (nossa consciência, nossa mente) e um objeto conhecido (a realidade, o mundo, os inúmeros fenômenos).
  • As possibilidades do conhecimento: O ceticismo prega a impossibilidade de conhecermos a verdade. O dogmatismo defende a possibilidade de conhecermos a verdade.
  • Ceticismo absoluto: Tudo é ilusório e passageiro. Consiste em negar de forma total nossa possibilidade de conhecer a verdade. Assim, o homem nada pode afirmar, pois nada pode conhecer. Ao dizer que nada é verdadeiro, o ceticismo absoluto anula a si próprio, pois diz que nada é verdadeiro, mas acaba afirmando que pelo menos existe algo de verdadeiro.
  • O ceticismo relativo: Nega apenas parcialmente nossa capacidade de conhecer a verdade.
  • Dogmatismo: É uma doutrina que defende a possibilidade de conhecermos a verdade. Dogmatismo ingênuo: Consiste em acreditar plenamente nas possibilidades do nosso conhecimento.
  • Dogmatismo crítico: Acredita em nossa capacidade de conhecer a verdade mediante um esforço conjugado de nossos sentidos e nossa inteligência.
  • Empirismo: Defende que todas  as nossas  idéias são provenientes de nossas percepções sensoriais (visão, audição, tato, olfato e paladar).
  • Racionalismo crítico e materialismo dialético: A experiência e o trabalho da razão depositam total e exclusiva confiança na razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade.
Se há conhecimento humano, existe a verdade, porque esta nada mais é do que a adequação da inteligência com a coisa.  Com a experiência da verdade, há conseqüentemente  a existência da certeza, que é passar a inteligência à verdade conhecida. A inteligência humana tende a fixar-se na verdade conhecida. Metodologicamente, há primeiro o conhecimento, depois a verdade, e finalmente a certeza. Tal tomada de posição perante o primeiro problema da critica é chamado dogmatismo. Sendo defendida por filósofos realistas, como por exemplo: Aristóteles e Tomás de Aquino.
Se, ao contrário, se sustentar que a inteligência permanece, em tudo e sempre, sem nada afirmar e sem nada negar, sem admitir nenhuma verdade e nenhuma certeza, sendo a dúvida universal e permanente o resultado normal da inteligência humana, está se defendendo o ceticismo.
O problema crítico representa um passo além do dogmatismo e do ceticismo. Uma vez que admite-se a existência da verdade (valor do conhecimento), e da certeza, pergunta-se então: Onde estão as coisas: Só na inteligência? Só na matéria? No intelecto humano e na matéria? Ou só na razão? (como dizem os grandes filósofos – idealistas, racionalistas e realistas).
Para o idealismo o ente transcendental compõe-se somente de idéias. Para o materialismo, somente matéria. Para o realismo, idéias e matéria. Para o racionalismo, é razão. A crítica é a base necessária de todo o saber cientifico e filosófico, inclusive da própria ontologia.

Bibliografia
Reale, Miguel, Introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 65-76;85-89; 119-123.
 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O que é feio? O que é belo? Revisão de Filosofia.

A disciplina de Filosofia é muito importante para você aprender alguns conceitos sobre a ciência, sobre as civilizações e sobre a própria história da Humanidade. Veja agora os conceitos sobre Arte e Estética.

A discussão sobre Arte e Estética. O que é ‘Feio’. O que e ‘Belo’?
 
 A sensibilidade de quem admira um objeto (qualquer ser ou paisagem) Quem é bonito? Quem é feio? O que é bonito? O que é feio? Qual expressão artística pode ser considerada bonita, feia, boa ou ruim? Difícil de responder né!? Bom, a resposta para tais perguntas parece dizer respeito à questão de gosto de cada pessoa. Será?
O certo é que todas as vezes que observamos algo, sentimos e escutamos qualquer coisa, os nossos órgãos sensoriais produzem informações para o nosso cérebro que rapidamente processa e nos proporciona uma interpretação sobre o que nos cerca. Geralmente esta interpretação pode nos levar a um sentimento de prazer, aprovação, reprovação, nojo, beleza, feiúra, etc.
E isso tudo ainda depende de como a nossa sociedade percebe as coisas e de como nós absorvemos da sociedade esses significados. Assim, as ideias de belo, feio, bom, ruim estão intimamente ligadas à cultura à qual pertencemos.
Mas como identificamos ou como escolhemos o nosso estilo musical, o estilo de pintura, o tipo de filme ou peça de teatro que gostamos de assistir? Qual o melhor ou pior estilo? Para tentar responder a estas questões, a Filosofia possui um ramo de estudo chamado: “Estética”.

ARTE

Do latim, ars, artis significa: o “ato de fazer”. Para os Gregos Antigos, a arte significava o domínio do ser humano de uma ou mais técnicas. Deriva daí a ideia de que saber faze r algo muito bem feito é uma arte, por exemplo: a arte da guerra, a arte da política, a arte de fazer parto, da medicina, do direito, etc. Deste modo, arte é o ato de fazer a obra que será admirada, seja ela uma canção, uma escultura, uma poesia, uma dança, uma arquitetura. A estética será, portanto, a disciplina que irá estudar, analisar a relação existente entre a arte e o homem.
Mas o que determinaria o ato de fazer uma obra de arte? A resposta mais aceita é a personalidade do artista e o contexto histórico-cultural do qual o artista faz parte e todas as influências que ele possa receber. Para Gallo (1997), o próprio artista é quem determina a funcionalidade de sua obra.
Na política, por exemplo, o artista pode retratar uma injustiça, um problema social, uma ideologia. A obra “Os retirantes”, de Cândido Portinari (1903-1962), representa a vida difícil dos milhares de brasileiros que migram de cidades do interior para os grandes centros em busca de melhores condições de vida. A imagem retrata a magreza, a fome, a miséria e o sofrimento das pessoas que se encontram nesta situação.
Filosofia Enem
“Os Retirantes”, de Portinari. 1944.
Na religião, a arte serve para a representação do sagrado e está a serviço das instituições religiosas e de suas crenças. A arte está presente nas pinturas, esculturas, hinos e arquitetura dos templos religiosos. A maior representação de arte sacra está relacionada à Igreja Católica na forma das imagens e esculturas que representam todas as divindades do cristianismo católico.
Filosofia Enem
Anjo com o cálice da Paixão, na Via Sacra de Congonhas.
 
Na educação, a arte assume o compromisso com o lúdico, ou seja, busca, a partir da perspectiva pedagógica, ensinar as pessoas a compreender o mundo a partir da criação de obras artísticas.
Filosofia Enem
Na arte naturalista, Gallo (1997), menciona a finalidade de retratar a realidade tal como ela é. Podemos assim representar a realidade através de um quadro de natureza morta, com uma foto 3×4 ou a pintura de uma paisagem ou de uma pessoa.
Há ainda a arte da técnica formalista, na qual a preocupação central do artista é o emprego correto de uma técnica específica para realizar uma obra de arte. Exemplos: Impressionismo, Expressionismo, Cubismo ou Surrealismo.
Filosofia Enem
Metamorfose de Narciso, de Salvador Dalí.
 
O conceito moderno de arte estaria contido nos trabalhos de Kant. Basicamente, o filósofo fez a seguinte diferenciação: arte e natureza de arte e ciência. Para a primeira, distingue-se o significado de arte no sentido de haver uma arte da mecânica, na qual o ser humano teria a capacidade de fazer algo a partir do seu próprio conhecimento. Para a segunda, desenvolveu a terminologia de arte estética, que tem por finalidade a contemplação do sentimento de prazer, ou seja, do aprazível, que significa algo agradável e alegre. Daí o significado de Belas Artes.

ESTÉTICA

Foi o filósofo Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1831), que utilizou a palavra “estética”, no conceito moderno, pela primeira vez. Ele tinha o intuito de estabelecer uma disciplina da Filosofia que se encarregaria de estudar todas as manifestações artísticas. Assim, já na Grécia Antiga, outros filósofos já faziam o uso da palavra “estética” que deriva da palavra grega aesthesis e que significa sensibilidade. Deste modo, no sentido mais estreito do significado, a palavra “estética” significa: “sensibilidade”.
Atualmente, seu significado moderno corresponde a: “doutrina do conhecimento sensível”. Baumgarten definiu a estética como sendo uma disciplina que deveria refletir sobre as emoções produzidas pelos objetos que são admirados pelos seres humanos. O autor ainda afirmava que a estética deveria ser abordada de forma subjetiva, ou seja, a partir da consciência da cada indivíduo.
Este filósofo da arte entende que a única forma de se apreciar uma obra de arte se dá pela sensibilidade do observador. Ela, a sensibilidade, só é possível quando o observador se permite contemplar a arte a partir da sua própria subjetividade.

RELAÇÃO ENTRE ARTE E NATUREZA: são três concepções.

1. Arte como imitação: arte dependente da natureza. Nesta concepção encontramos a inspiração do artista altamente atrelada à cópia de algum elemento pertencente à própria natureza, que é representado em uma pintura ou escultura. Também é conhecida como arte morta.
Filosofia Enem
“Esporas-bravas”, de Henri Latour. 1892
 
2. Arte como criação: arte independente da natureza. A originalidade de uma obra se expressa no próprio sentimento do artista, de modo que este é comparado a Deus como o criador da sua obra. O artista busca a perfeição não dos traços, mas dos sentimentos expressos. O Romantismo é um bom exemplo, no qual a criação estética se desvincula da natureza e representa sistematicamente a liberdade criativa do homem.
Filosofia Enem
“Sansão e Dalila”, de Oscar Pereira da Silva. 1893
 
3. Arte como construção: arte condicionada pela natureza. Nesta perspectiva há uma mistura conceitual entre homem e natureza. O homem cria uma obra artística na qual ele conjuga os elementos da natureza e os sentimentos do próprio homem. O melhor exemplo desta perspectiva é, sem dúvida, a arte abstrata.
 
Fonte: http://blogdoenem.com.br/filosofia-enem-arte-estetica/
 

ARTE, ESTÉTICA E BELEZA NA FILOSOFIA






A questão que observamos é a busca incansável pelo Belo, pelo que é prazeroso. O Corpo toma a forma de expressividade de beleza e sedução dentro da sociedade, nascendo como possibilidade de nova modalidade artística. Há o nu artístico, o fisiculturismo e uma espécie de “culto ao corpo” refletindo uma intensa ansiedade pela apreensão do que é belo. Mais que uma percepção, há uma busca pela posse da beleza através do Corpo. Para a Filosofia o significado da Palavra Estética vem do grego (aistheiké) e significa “perceptível pelos sentidos”. Refere-se a tudo o que pode ser percebido com agradável e belo pelos sentidos. O primeiro a utilizar este termo no sentido de Teoria do Belo e suas manifestações através da Arte foi Alexander Baumgarten (1714-1762), em 1750. O termo referia-se à cognição por meio dos sentidos, ou seja, o conhecimento sensível. Para Baumgarten, a estética tem exigências próprias em termos de verdade, pois alia a sensação ao sentimento e à racionalidade. Segundo ele a estética completa a lógica e deve dirigir a faculdade do conhecer pela sensibilidade. A beleza estética como “ a perfeição – à medida que é observável como fenômeno do que é chamado, em sentido amplo, gosto – é a beleza.”
O termo Estética também designa uma área específica de estudos filosóficos, definido pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) como estudo das condições da percepção pelos sentidos. Assim como estudo e teoria do belo, a estética constitui um campo de investigação filosófica que pretende alcançar um tipo específico de conhecimento: aquele que se refere ao que é captado pelos sentidos. A Estética parte da experiência sensível, da sensação, da percepção sensível para chegar a um resultado que não apresenta a mesma clareza e distinção da lógica e da matemática. O principal objeto de investigação da Estética é o fenômeno artístico que se traduz na obra de arte.

1.       O que é o Belo?

Podemos responder a essa pergunta com base em dois em dois tipos de juízo:

     A.      Juízo de Fato – dizer o que as coisas são
     B.      Juízo de Valor – Julgar o que as coisas são: boas, ruins, bonitas, feias, etc. Podemos entender os juízos de valor em dois aspectos:
B.1 - Juizo Moral
B.2 - Juízo Estético (Julgamos se algum objeto, acontecimento, pessoa ou ser é belo).

2ª  Parte: Estética
2.         Onde se encontra a Beleza?

1  .       Visão idealista
       Platão: A Beleza é algo que existe em si, é Objetiva. Seria uma forma ideal que subsistiria          por si mesma, como um modelo no mundo das ideias. O que percebemos no mundo sensível e achamos bonito só pode ser considerado belo porque se assemelharia à ideia de beleza que trazemos guardada em nossa alma.
* Platão interpreta a arte de modo ambivalente. Por um lado ele condena a pintura e a escultura como artes ilusórias, pois elas falsificam a imagem das verdadeiras formas da natureza; por outro, elogia a música e a dança como exercícios de educação para a compreensão do bem e da verdade. Para Platão, há um nexo fundamental entre o belo, o bem e a verdade, sendo a experiência de um a condução para o conhecimento do outro. Todavia não podemos caracterizar a constituição de uma estética no pensamento e nem na obra de Platão, pois a questão da arte e do belo só é colocada numa referência ao bem e a verdade, tendo como propósito não uma investigação do fenômeno artístico, mas uma determinação do conhecimento filosófico.
2  .       Visão Materialista-Empirista
HUME (filósofo escocês): A beleza não está propriamente nos objetos (não é algo puramente objetivo), mas depende do gosto individual, da maneira como cada pessoa vê e valoriza o objeto – ou seja – o juízo do que não é ou não é belo, é subjetivo. Esse gosto estético seria, em grande parte, desenvolvido sob a influência da cultura em que se vive.
3
                    3.      KANT
 
CRITICA DA FACULDADE DO JUIZO: Embora o juízo estético sobre as coisas seja uma capacidade subjetiva, pessoal, há aspectos universais na percepção estética dos indivíduos. Nossa estrutura sensível (os órgãos dos sentidos) e nossa imaginação são as condições que tornam possível a percepção estética, mas essas condições são comuns a todos os seres humanos e, nesse sentido, pode haver certa universalidade nas avaliações estéticas.  (Kant levou em consideração a estrutura da sensibilidade humana). Kant entendia que o juízo estético não é guiado pela razão e sim pela faculdade da imaginação que nos proporciona prazer, o que não é nada lógico ou racional, e sim algo subjetivo, já que se relaciona ao prazer ou desprazer individual. Para o filósofo “todos os juízos de gosto são juízos singulares”. Kant diz também que “belo é o que apraz universalmente sem conceito”. Isso significa que é impossível conceituar, definir racionalmente o belo, pois “quando se julgam objetos simplesmente segundo conceitos, toda a representação da beleza é perdida.” Mas quando dizemos que algo é belo pretendemos que esse juízo esteja afirmando algo que realmente pertence ao objeto ou seja, não dizemos “isto é belo para mim, mas sim, isto é belo, esperando que os demais concordem com esse julgamento. Portanto, esse julgamento pretende ser voz universal, pois contem uma expectativa de que aquilo que julgamos belo, seja, de fato, belo.
Para Kant o Fundamento do Juízo de gosto seria a Vinculação Universal entre o Belo e o Sentimento de prazer. E como determinados objetos despertam em grande quantidade de pessoas o mesmo sentimento de prazer, é possível supor a existência de certa universalidade nos juízos estéticos.     

       4.     HEGEL
 
Trabalhou a questão da beleza numa perspectiva histórica, não considerando apenas as condições da estrutura da sensibilidade humana. Para ele o relativo consenso acerca de quais são as belas coisas mostra apenas que o entendimento do que é belo depende do momento histórico e do desenvolvimento cultural. Esses dois fatores determinariam certa visão de mundo, a partir da qual algumas coisas seriam consideradas belas e outras não. Hegel procurou demonstrar essa tese analisando a história da arte, da Antiguidade até o seu tempo, e demonstrando que a noção de belo variava conforme a época e o lugar.



5.     A Questão do Gosto e da Subjetividade
O Gosto não pode ser encarado como uma preferência arbitraria da nossa subjetividade. A subjetividade em relação ao objeto estético precisa estar mais interessada em conhecer, entregando-se às particularidades de cada objeto, do que em preferir. Nesse sentido, ter gosto é ter capacidade de julgamento sem preconceitos. É a própria presença de arte que forma o gosto: torna-nos disponíveis, supera as particularidades da subjetividade, converte o particular em universal.
 
6.     A recepção estética
A experiência estética é a experiência da presença tanto do objeto como do sujeito que o recebe. Nenhum argumento racional ou conjunto de regras poderá nos convencer de que um objeto é belo se não pudermos percebê-lo por nós mesmos, se não estivermos frente a frente com ele. A obra de arte espera que aquele que a aprecie “jogue seu jogo”, isto é, entre no seu mundo, de acordo com as regras ditadas pela própria obra para que seus múltiplos sentidos possam aparecer.
A arte desafia o nosso intelecto tanto quanto nossas capacidades perceptivas e emocionais. Quando nos expomos a uma obra de arte podemos educar o nosso gosto, ter a sensibilidade mais aguda, e enriquecermos emocional e intelectualmente por meio do prazer e da compreensão que nos proporciona.
“Todas as obras de arte, e a arte em geral, são enigmas; isso desde sempre irritou a teoria da arte (...) É impossível explicar a broncos o que é a arte; não poderiam introduzir na sua experiência viva a compreensão intelectual. Está neles tão sobrevalorizado o princípio de realidade que interdiz sem mais o comportamento estético (...) Perante o ‘Para quê tudo isso?’, perante a reprovação da sua real inutilidade, as obras de arte emudecem total e irremediavelmente.”  (Teoria Estética, Theodor Adorno)
GOSTO: discussão ou disputa?
Quem é artista em nossa sociedade?  Cultura de Reprodução – Indústria Cultural ?
Que artes encontramos em nossa sociedade? 
A arte exige formalidade? É possível expressão artística desvinculada de academicismo?

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES:
1.      Aristóteles é o primeiro pensador a escrever uma obra acerca da questão da arte. A Poética tem como tema a origem da poesia e de seus diferentes gêneros, principalmente a epopéia e a tragédia. Sua tese fundamental, de que a arte imita a natureza, tornou-se um paradigma para todo o pensamento estético ocidental. Platão e Aristóteles foram interpretados por Tomás de Aquino em sua Suma Teológica, que afirma que o belo é um dos aspectos fundamentais do ser, juntamente com o bem e a verdade; o que efetiva a tripartição do estudo do ser em estética, ética e metafísica.
2.      Somente no século XVIII, Baumgarten vai inaugurar oficialmente a disciplina filosófica "estética", com a publicação de seu livro Estética ou teoria das artes liberais, conceituando-a como "ciência do belo e da arte".
 
 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

TRABALHO, ALIENAÇÃO E CONSUMO


TRABALHO COMO TORTURA - Talvez você já tenha visto camisetas que trazem estampados o simpático    (e perigoso) gato Garfield e a frase “Odeio segunda-feira”, representando o sentimento quase universal de desânimo  diante do trabalho. De fato, enquanto o próximo e desejado final de semana não chega, busca-se alento no happy hour, como se a “hora feliz” só pudesse existir no tempo-após-o-trabalho.
Confirmando esse sentido negativo, a própria palavra trabalhar deriva do latim tripaliare, que nomeava o tripálio, um instrumento formado por três paus, próprio para atar os condenados ou para manter presos os animais difíceis de ferrar. A origem comum identifica o trabalho à tortura.
Se a vida humana depende do trabalho, e este causa tanto desprazer, só podemos concluir que o ser humano está condenado à infelicidade. Para reverter esse quadro pessimista, vejamos os aspectos positivos do trabalho.
A HUMANIZAÇÃO PELO TRABALHO – É certo que o ser humano inaugura o mundo da cultura por sua capacidade de simbolizar. Por mudar conforme a época e o lugar, a cultura humana “faz história”, isto é, as gerações conservam certas práticas aprendidas e modificam outras. È pelo trabalho que a natureza é transformada mediante o esforço coletivo para arar a terra, colher seus frutos, domesticar animais, modificar paisagens e construir cidades. E não só: pelo trabalho surgem instituições como a família, o Estado, a escola: obras de pensamento como o mito. A ciência, a arte, a filosofia.
Podemos dizer que o ser humano se faz pelo trabalho, porque ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade. Desenvolve a imaginação, aprende a se relacionar com os demais, a enfrentar conflitos, a exigir de si mesmo a superação de dificuldades. Enfim, com o trabalho ninguém permanece o mesmo, porque ele modifica e enriquece a percepção do mundo e de si próprio.
Como condição de humanização, o trabalho liberta, ao viabilizar projetos e concretizar sonhos. Se em um primeiro momento a natureza apresenta-se como destino, o trabalho será a possibilidade da superação dos determinismos. Nesse sentido, a liberdade humana não é dada, mas resulta da ação humana transformadora. Nem sempre, porém, prevalece essa concepção positiva, sobretudo quando as pessoas são obrigadas a viver do trabalho alienado, que resulta de relações de exploração.
Estamos, portanto, diante de um impasse: o trabalho é tortura ou emancipação? Se voltarmos nosso olhar à história para ver como pessoas trabalham e o que pensam sobre trabalho, teremos uma visão mais clara dessa contradição.
Para refletir: Para se emancipar, a mulher precisou ter amplo acesso ao mercado de trabalho, não só para garantir sua autonomia financeira com relação ao homem – Pai ou marido _, mas também para construir nova identidade e tornar-se mais livre em suas escolhas.
 ÓCIO E NEGÓCIO -  Nas sociedades tribais, as pessoas dividem tarefas de acordo com sua força e capacidade. Os homens caçam, derrubam árvores para preparar o terreno das plantações, enquanto as mulheres semeiam e fazem a coleta. Como as divisão das tarefas se baseia na cooperação e na complementação e não na exploração, tanto a terra como os frutos do trabalho pertencem a toda a comunidade.
Por que mudaria esse estado de coisas? Para Jean-Jacques Rousseau, filósofo do século XVIII, a desigualdade surgiu quando alguém, ao cercar um terreno, lembrou-se de dizer “Isto é meu”, criando assim a propriedade privada. Nesse momento, abriu-se o caminho para a divisão social, as relações de dominação e a desigual apropriação dos frutos do trabalho. Desse modo, desde as mais antigas civilizações existe a divisão entre aqueles que mandam – e portanto projetam, concebem, inventam – e os que só obedecem e executam. È o que se denomina a dicotomia entre a concepção e a execução do trabalho.
À primeira vista, há aqueles que até hoje admitem ser “natural” essa divisão de funções, pois alguns teriam mais talento para o pensar, ao passo que outros só seriam capazes de atividades braçais. O olhar mais atento constata, no entanto, que a sociedade descobre mecanismos para manter a divisão, não conforme a capacidade, mas sim de acordo com a classe a que cada um pertence.                                                     Dicotomia: Divisão em duas partes.
Entre os antigos gregos e romanos, que viviam em sociedades escravagistas, era nítida a divisão ente atividades intelectuais e braçais, com a evidente desvalorização desta última. Um dos indícios da divisão social era a educação, por ser privilégio dos proprietários. Não por acaso, a palavra escola na Grécia antiga significava literalmente o “lugar do ócio”, onde as crianças se dedicavam à ginástica, aprendiam jogos, música e retórica – a arte de bem falar.
Para saber mais: O termo ócio não tinha naquele tempo o mesmo sentido de hoje. Para nós, ócio é o não fazer, o descanso. Para os gregos, tratava-se do “ócio digno”, que os isentava das atividades que apenas garantem a subsistência, para gozar o tempo livre e dedicar-se às funções nobres de guerrear, fazer política, pensar, decidir. Entre os romanos a palavra ócio (do latim, otium) manteve o sentido original grego, tanto é que o trabalho para sustentar a vida era identificado à palavra negócio (Nec-otium, “não ócio”).
UMA NOVA CONCEPÇÃO DE TRABALHO – Até a Idade Média, a riqueza se restringia à posse de terras, mas ao final desse período e durante a Idade Moderna, as atividades mercantis e manufatureiras desenvolveram-se a tal ponto que provocaram a expansão das fábricas, o que culminou com a Revolução Industrial no século XVIII.
Esses acontecimentos decorreram da ascensão da burguesia enriquecida, que valorizava a técnica e o trabalho, uma vez que constituía um segmento originado dos antigos servos libertos e que tornou livres as cidades antes controladas por senhores feudais. Por isso mesmo, a máquina passou a exercer grande fascínio: no século XVII, Pascal inventou a primeira máquina de calcular: Torricelli construiu o barômetro; surgiu o tear mecânico. No mesmo espírito, Galileu inaugurou o método das ciências da natureza, que se baseava no uso da técnica e da experimentação.
Ø As teorias da modernidade – O que diziam os pensadores da modernidade a respeito dessas mudanças, ao longo dos séculos XVII ao XIX? Francis Bacon (1561-1626), com o seu lema “saber é poder”, crítica a base metafísica da física grega e medieval e realça o papel histórico da ciência e do saber instrumental, capaz de dominar a natureza. Rejeita as concepções tradicionais de pensadores “sempre prontos para tagarelar”, mas que “são incapazes de gerar, pois a sabedoria é farta de palavras, mas estéril em obras” (Novum organum. Livro I,LXXI. SP: Abril Cultural, 1973. P.47. - Coleção Pensadores).
Numa linha semelhante, René Descartes (1596-1650) afirma:      Pois elas [as noções gerais da física] me fizeram ver que é possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis à vida, e que, em vez dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, se pode encontrar uma outra prática, pela qual [...] poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza.
Começa aí o ideal prometeico da ciência. Embora Bacon e Descartes seguissem linhas de reflexão diferentes e em certos pontos antagônicas, ambos destacam que a ciência e a técnica são capazes de “dominar a natureza”. Como se vê, estava ocorrendo uma mudança de enfoque na relação entre o pensar e o fazer.
Enquanto na Idade Média o saber contemplativo era privilegiado em detrimento da prática, no Renascimento e na Idade Moderna deu-se a valorização da técnica, da experimentação, do conhecimento alcançado por meio da prática.
No campo político e econômico, estavam sendo elaborados os princípios do liberalismo. Quais as consequências das ideias liberais para o trabalho? Superando as relações de dominação entre senhores e servos, foi instituído o contrato de trabalho entre indivíduos livres, o que significa o reconhecimento do trabalhador no campo jurídico.
Uma das novidades das ideias liberais é a valorização do trabalho. Assim diz Locke:Embora a terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem propriedade em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho do seu corpo e a obra de suas mãos, pode dizer-se, são propriamente dele. [...] Desde que esse trabalho é propriedade exclusiva do trabalhador, nenhum outro homem pode ter direito ao que se juntou, pelo menos quando houver bastante e igualmente de boa qualidade em comum para terceiros.


 Modernidade: É o período que começa no Renascimento em oposição à tradição medieval, valorizando o espírito crítico e a racionalidade científica. Os principais representantes são Bacon, Galileu e Descartes, no século XVII.                                                                
Prometeico: Relativo a Prometeu, figura da mitologia grega que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos seres humanos. Simboliza a valorização da técnica e do trabalho humano.                                                                                
Saber contemplativo: Conceito com vários sentidos. No contexto, saber puramente teórico, restrito à atividade da mente. Olhar atento e desinteressado, ou seja, sem uma finalidade prática imediata


No século XIX, o filósofo alemão Hegel faz uma leitura otimista da função do trabalho na célebre passagem “do senhor e do escravo”, descrita na Fenomenologia do espírito: dois indivíduos lutam entre si e um deles sai vencedor, podendo matar o vencido. Este, no entanto, prefere submeter-se, para poupar a própria vida. A fim de ser reconhecido como senhor, o vencedor conserva o outro como servo. O servo submetido tudo faz para o senhor, mas com o tempo o senhor descobre que não sabe fazer mais nada, porque, entre ele e o mundo, colocou o servo, e é ele que domina a natureza. Desse modo, o servo recupera a liberdade, porque o trabalho se torna a expressão da liberdade reconquistada.
O TRABALHO COMO MERCADORIA: A ALIENAÇÃO – No século XIX, o resplendor do progresso alcançado pela Revolução Industrial não oculta a questão social. A exploração dos operários fica explícita em extensas jornadas de trabalho em péssimas instalações, salários baixos, arregimentação de crianças e mulheres como mão de obra mais barata. Esse estado de coisas desencadeou os movimentos socialistas e anarquistas.
Nesse panorama, Karl Marx (1818-1883) retoma a temática hegeliana ao ver o trabalho como condição de liberdade. É pelo trabalho que o ser humano que o ser humano se confronta com as forças da natureza e, ao mesmo tempo que a modifica, transforma a si mesmo, humaniza-se.
No entanto, Marx nega que a nova ordem econômica do capitalismo fosse capaz de possibilitar a igualdade entre as partes, porque o trabalhador perde mais do que ganha. Já que produz para outro: a posse do produto lhe escapa. Nesse caso, é ele próprio que deixa de ser o centro de si mesmo. Não escolhe o salário – embora isso lhe apareça ficticiamente como o resultado de um contrato livre –, não escolhe o horário nem o ritmo de trabalho e é comandado de fora, por forças que não mais controla.
O resultado é a pessoa tornar-se “estranha”, “alheia” a i própria: é o fenômeno da alienação. Alienação. Do latim alienare, “afastar”; alienus, “que pertence a um outro”; alius, “outro”. Portanto, alienar, sob determinado aspecto, é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu.
Há vários sentidos para a palavra alienação. Em todos eles, há algo em comum: do ponto de vista jurídico, perde-se a posse de um bem; para a psiquiatria, o alienado mental perde a dimensão de si na relação com os outros; segundo Rousseoau, o poder do povo é inalienável, porque só a ele pertence; na linguagem comum, a pessoas alienada perde a compreensão do mundo em que vive.
Etimologia: Alienação. Do latim alienare, “afastar”; alienus, “que pertence a um outro”; alius, “outro”. Portanto, alienar, sob determinado aspecto, é tornar alheio, tranferir par aoutrem o que é seu.
Ø Alienação na produção – Para Marx, que analisou esse conceito básico, a alienação não é puramente teórica, porque se manifesta na vida real quando o produto do trabalho deixa de pertencer a quem o produziu. Isso ocorre porque na economia capitalista prevalece a lógica do mercado, em que tudo tem um preço, ou seja, ao vender sua força de trabalho mediante salário, o operário também se transforma em mercadoria. Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do trabalhador. Vejamos o que significam esses conceitos.

·      O fetichismo é o processo pelo qual a mercadoria, um ser inanimado, adquire “vida” porque os valores de troca tornam-se superiores aos valores de uso e passam a determinar as relações humanas, ao contrário do que deveria acontecer. Desse modo, a relação entre produtos não se faz entre eles próprios, mas entre os produtos do seu trabalho. Por exemplo, não são relações entre alfaiate e carpinteiro, mas entre casaco e mesa, que são equiparados conforme uma medida comum de valor.
·      A reificação (do latim res, “coisa”) é a transformação dos seres humanos em coisas. Em consequência, a “humanização” da mercadoria leva à desumanização da pessoa, á sua coisificação, isto é, o individuo é transformado em mercadoria.
A alienação não se aplica apenas à produção do trabalhador, mas também às formas do consumo, como veremos mais adiante.
A ERA DO OLHAR: A DISCIPLINA – Outros pensadores investigaram as mudanças decorrentes do capitalismo e do nascimento das fábricas, analisando-as sob outro ângulo, o da instauração da era da disciplina. Segundo Michel Foucault, um novo tipo de disciplina facilitou a dominação mediante a “docilização” do corpo.
Para exemplificar, vamos voltar à França do século XVIII. A historiadora francesa contemporânea Michelle Perrot relata a descrição feita por um inspetor de manufaturas de uma oficina têxtil com cerca de 100 metros de comprimento, pavimentada por lajes e iluminada por cinquenta janelas com tela branca: No meio dessa sala [em] um canal coberto com lajes entreabertas cada fiandeira vai, em silencio, tirar a água de que precisa [para a fiação]. Essa oficina, à primeira vista, surpreende o visitante pela quantidade de pessoas aí empregadas, pela ordem, pela limpeza e pela extrema subordicação que aí reina... Contamos 50 rocas duplas[...] ocupadas por 100 fiandeiras e o mesmo tanto de dobradeiras, tão disciplinadas como tropas.
Nos trechos sublinhados, a historiadora destaca a nova maneira de trabalhar, representada por dois modelos disciplinares: o religioso (silencio) e o militar (hierarquia, disposição em fileiras). A disciplina é mantida pelos supervisores, que avaliam a qualidade do serviço, evitam brigas e fazem cumprir os severos regulamentos por meio de proibições (não falar alto, não dizer palavrões, não cantar), regras de horários (começa a “tirania” do relógio para entrada, saída e intervalos) e ainda penalidades como multas, advertências, suspensões, demissões, de acordo com a gravidade da “falta”.
Na nova estrutura, o olhar “olhar vigilante” sobressai de maneira decisiva. A organização do tempo e do espaço imposta na fábrica não é, porém, um fenômeno isolado. Nos séculos XVII e XVIII, formou-se a chamada “sociedade disciplinar”, com a criação de instituições fechadas,voltadas para o controle social, tais como prisões, orfanatos, reformatórios, asilos de miseráveis e “vagabundos”, hospícios, quartéis e escolas.
Para saber mais: A escola institucionalizou-se de maneira mais complexa  quando foram criados os internatos, com a exigência de separação por idades, graduação em anos e organização de currículos.
Assim diz Michel Foucault: Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo [...]. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII formulas gerais de dominação. [...]. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. [...] A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”.A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência).
Para refletir: La Fontaine viveu na França do século XVII. Escreveu várias fábulas, dentre as quais destaca-se A cigarra e a formiga, que todos conhecem. Vamos conhecer essa fábula e estabelecer a relação entre ela e a nova maneira de organizar a disciplina do trabalho. Em seguida, pensando nos tempos atuais, invente outro final para a história.
DE OLHO NO CRONOMETRO – O poeta brasileiro Mario Quintana, em Das ampulhetas e das clepsidras, diz o seguinte: Antes havia os relógios d’água, antes havia os relógios de areia. O tempo fazia parte da natureza. Agora é uma abstração – unicamente denunciada por um tic-tac mecânico , como um acionar contínuo de um gatilho numa espécie de roleta-russa. Por isso é que os antigos aceitavam mais naturalmente a morte.
Dialogando com o poeta, acrescentamos que somos “feitos” de tempo: sem a memória (passado) e sem os projetos (futuro), o nosso presente deixaria de ser propriamente humano. Portanto, o que dizer de um tempo de velocidade preestabelecida que não respeita a cadência do próprio corpo nem as diferenças individuais?
Na era capitalista, eficácia, organização e padronização transformam-se em palavras de ordem e todo movimento passa a ser controlado externa e artificialmente. Se artificializamos demais os ritmos vitais, nem poderemos “morrer bem”, já que vivemos tão mal!
Foi isso que aconteceu quando os proprietários das fábricas, na busca de maior produtividade, implantaram sistemas de “racionalização”, que em última análise, significam economizar tempo, transformando-o em mercadoria. Como foi possível tal proeza?
Ø Do trabalho ‘em migalhas” – O norte americano Frederick Taylor, no inicio do século XX, elaborou uma teoria conhecida como taylorismo. Partindo do principio de que os operários são indolentes e não sabem usar seus gestos de modo econômico. Taylor estabeleceu um “controle cientifico”,por meio da medição por cronômetros, para que a produção fabril fosse cada vez mais simples e rápida.
Com a criação de um setor de planejamento responsável pelo “saber como produzir”, ficava muito mais nítida a separação entre a concepção e a execução do trabalho, isto é, entre o projeto  e a sua realização, entre o pensar e o fazer.
A mesma intenção de aumentar a produtividade levou Henry Ford, também norte-americano, a introduzir a esteira da linha de montagem e o processo de padronização ou estandardização da produção em série na sua fábrica de automóveis.
O parcelamento das tarefas reduz a atividade a gestos mínimos, o que aumenta a produção de maneira incrível, mas também transforma o trabalho “em migalhas”: cada operário produz apenas uma parte do produto.
Um dos problemas desse processo é que, além da monotonia que reduz a ação a operações simples, detecta-se a fragmentação do conhecimento: o operário perde a noção do todo e com isso o conhecimento prático da fabricação de um objeto, situação muito diferente daquele do antigo artesão, que cuidava de todas as etapas da confecção de um produto.
O planejamento e a burocracia apresentam-se com a imagem de neutralidade e eficácia da organização, como se estivessem baseados em um saber objetivo, eficaz, desinteressado. Essa imagem de neutralidade mascara um conteúdo ideológico eminentemente político: trata-se, na verdade, de uma técnica social de dominação. Vejamos por quê.
A chamada racionalização do processo de trabalho trouxe em si uma irracionalidade básica, ao desvalorizar o ritmo do corpo, o sentimento, a imaginação, a inventividade humana. Não é fácil submeter o operário ao trabalho rotineiro e repetitivo, reduzindo-o a gestos estereotipados, mas com o taylorismo, a coação visível de um chefe foi substituída por maneiras mais sutis de constrangimento que tornam o operário submisso, porque as orientações vindas do “setor de planejamento” tornam a ordem impessoal. Ao retirar toda iniciativa do operário, modela seu corpo segundo critérios exteriores, “científicos”, e faz com que interiorize a norma.
Aliado à lógica da produção em série, o investimento em publicidade visava a provocar artificialmente a “necessidade” da compra. Estava nascendo a sociedade de consumo com seus patrocinadores, anunciantes, facilidades de crediário e campanhas publicitárias veiculadas, naquele tempo, sobretudo pelo rádio. Desse modo, as fábricas não só lançavam um produto na praça, mas também “produziam” o consumidor.
NOVOS TEMPOS NA FÁBRICA – A partir da década de 1970 e 1980, mudanças radicais nas maneiras de trabalhar repercutiram no modo de vida tanto nas cidades como no campo. Com a implantação de tecnologias de automação, robótica e microeletrônica surgiram novos padrões de produtividade. A tendência nas fábricas foi quebrar a rigidez do fordismo e do taylorismo. Implantado por diversas empresas, o sistema ficou conhecido como toyotismo, nome originado da fábrica japonesa de automóveis Toyota.
O novo sistema de produção é mais flexível por atender aos pedidos à medida da demanda, com planejamento a curto prazo. Ao contrário do fordismo, são privilegiados o trabalho em equipe, a descentralização da iniciativa, com maior possibilidade de participação e decisão, além da necessidade de polivalência da mão de obra, já que o trabalhador deve controlar diversas máquinas ao mesmo tempo.
Outra característica dos novos tempos na fábrica foi o enfraquecimento dos sindicatos desde o final da década de 1980, o que repercutiu negativamente na capacidade de reivindicação de novos direitos e na manutenção das conquistas realizadas.
Para refletir: “Em julho de 2008, as autoridades do trabalho japonesas reconheceram que um importante funcionário da Toyota, de 45 anos, morreu devido ao excesso de trabalho, um mal conhecido no país como “karoski”. Ele teve uma isquemia cardíaca em janeiro de 2006 [...]. A vítima era o engenheiro-chefe do projeto da versão hibrida do sedã Camry. Ele teria trabalhado ao menos 80 horas extras mensais em novembro e dezembro de 2005. Essa carga a mais de trabalho incluía jornadas noturnas e finais de semana, além de frequentes viagens para o exterior. [...]De acordo com a agência Associated Press, a empresa soltou uma nota de pêsames e afirmou que vai melhorar o controle sobre a saúde de seus profissionais. (UOL Notícias, 9 jul. 2008. Disponível em http://carros.uol.com.br/ultnot/2008/07/09/ult634u3082.jhtm).
DA FÁBRICA PARA O ESCRITÓRIO – Na segunda metade do século XX, notou-se o deslocamento da mão de obra para o setor de serviços, ou seja, há mais trabalhadores no comércio no transporte e nos serviços de escritório em geral do que nas fábricas ou no campo. Isso não significa que as atividades agrícolas e industriais tenham perdido importância, mas que elas também dependem do desenvolvimento de técnicas de informação e comunicação. No nosso cotidiano, consumimos serviços de publicidade, pesquisa, comércio, finanças, saúde, educação, lazer, turismo etc. Nos escritórios, a comunicação é ampliada e torna-se cada vez mais ágil, quase instantânea, veiculada em âmbito mundial pela expansão das redes de telefonia e das infovias (Infraestrutura em forma óptica para transmissão de voz, dados e imagens).
Os recursos de microeletrônica têm facilitado a nova estrutura do teletrabalho (trabalho a distância), que possibilita maior autonomia e flexibilidade de horário, desobrigando as pessoas de se dirigirem diariamente a locais fixos, o que, em alguns casos, viabiliza o trabalho no próprio domicílio.
CONSUMO OU CONSUMISMO? A exploração e a alienação da produção estendem-se para a esfera do consumo. Ao prosperarem materialmente, os trabalhadores compartilham do “espírito do capitalismo”, atraídos pelas promessas da sociedade de consumo. Os centros de compras se transformam em “catedrais do consumo”, verdadeiros templos cujo apelo constante às novidades torna tudo descartável e rapidamente obsoleto. E com as facilidades da internet já se pode comprar até sem sair de casa. Vendem-se coisas, serviços, ideias.
Isso não significa, porém, que todo consumo seja alienado, pois o consumo pode ser consciente e criativo.
Ø  O consumo consciente – Consumir é um ato humano por excelência, que nos permite atender a necessidade vitais, próprias da sobrevivência, como alimentar-se, vestir-se e ter onde morar. Mas não só. O consumo abrange também tudo o que estimula o crescimento humano em suas múltiplas e imprevisíveis direções e como tal oferece condições para nos tornarmos melhores.
Pelo consumo consciente participamos como pessoas inteiras, movidas pela sensibilidade, imaginação, inteligência e liberdade. Por exemplo, não comemos e bebemos apenas para saciar a fome ou a sede, ,as temos preferências que o paladar apura, e usamos de criatividade para inventar novos pratos e bebidas saborosos.
Mesmo provocado externamente, o consumo supõe a possibilidade de escolha autônoma, não só para estabelecer preferências como para optar por adquirir ou não determinado produto. Nesse sentido, o consumo nunca é um fim em si, mas sempre um meio para outra coisa qualquer. Caso contrário, ele se transforma em consumismo.
As necessidades de consumo variam conforme a cultura e também dependem de cada indivíduo. O que se observa é que o consumo nunca serve apenas para atender às necessidades humanas essenciais, pois ele assume um caráter simbólico quando emprestamos significado àquilo que desejamos comprar: satisfação física, intelectual ou espiritual, que pode variar da aspiração ao status social ao desejo daquele que espera apenas por comodidade.
No entanto, o consumo não depende da pura subjetividade, uma vez que envolve a relação com outras pessoas e, por isso, supõe a avaliação do impacto sobre elas. Por exemplo, decisão de comprar apenas de empresas que não exploram mão de obra escrava nem abusam de trabalhadores subempregados, não adquirir produtos piratas, evitar o hábito do consumo exacerbado que leva a desperdício e agir tendo em vista a sustentabilidade do planeta, entre outras expressões de conscientização do consumidor.
Do mesmo modo, consumo consciente seria reconhecer o impacto de propagandas que manipulam nossas escolhas. Muitas vezes, o consumo dá ao indivíduo apenas a sensação provisória de saciedade e satisfação, ou o faz sentir-se ilusoriamente inserido socialmente.
Além da compra de produtos, vale lembrar que “consumimos” também ideias, veiculadas pela mídia. A preferência pela leitura de determinada revista, jornal ou blog pode orientar fortemente nosso modo de pensar, caso não busquemos fontes diferentes que comparem e interpretem o mesmo fato. Por isso a pluralidade de veículos difusores de notícias é salutar na democracia e toda a censura é perniciosa.
Ø  O consumo alienado – A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos – pela qual se separam a concepção e a execução do produto – reduz as possibilidades de o trabalhador encontrar satisfação na maior parte da sua vida, enquanto se sente obrigado a realizar tarefas desinteressantes.  Muitas vezes, essa situação cria a necessidade artificial de se proporcionar prazer pela posse de bens.
Além disso, a produção em massa tem por corolário o consumo de massa, porque as necessidades artificialmente estimuladas, sobretudo pela publicidade, levam os indivíduos a consumir sempre mais. O consumo alienado degenera em consumismo quando se torna um fim em si e não um meio, provocando desejos nunca satisfeitos, um sempre querer mais, um poço sem fundo. A ânsia do consumo perde toda   relação com as necessidades reais, o que leva as pessoas a gastar mais do que precisam e, às vezes, mais do que têm.
O comércio facilita a realização dos desejos ao possibilitar o parcelamento das compras, promover liquidações e ofertas de ocasião, estimular o uso de cartões de crédito, de compras pela internet. As mercadorias são rapidamente postas “fora de moda” porque seu design se tornou antiquado ou porque um novo produto se mostrou “indispensável”, seja televisão, geladeira, celular ou carro.
Para refletir: Ao olhar as vítimas, se pudéssemos examinar os “bastidores” da fabricação de muitas roupas “de marca”, encontraríamos tecelagens que produzem rápido à custa da exploração de mão de obra barata, principalmente de mulheres. É o caso de países como Guatemala, Honduras, Argélia, Turquia, Malásia e tantos outros, inclusive o Brasil.
CRÍTICA À SOCIEDADE ADMINISTRADA- Sobre a questão da produção e do consumo, debruçaram-se inúmeros filósofos, entre os quais os pensadores da Escola de Frankfurt, movimento que surgiu na década de 1930 na Alemanha.
Para os frankfurtianos, chegamos ao impasse que nos deixa perplexos diante da técnica – apresentada de início como libertadora – e que pode se mostrar, afinal, artífice de uma ordem tecnocrática opressora. A técnica aplicada ao trabalho tem provocado a alienação do trabalhador e o esgotamento dos recursos naturais. De fato, a exaltação do progresso indiscriminado não tem respeitado o que hoje chamamos de desenvolvimento sustentável.
Ao submeter-se passivamente aos critérios de produtividade e desempenho no mundo competitivo do mercado, o indivíduo perde muito do prazer de sua atividade ao ser regido por princípios aparentemente “racionais”. Por isso, Max Horkheimer acrescenta que “a doença da razão está no fato de que ela nasceu da necessidade humana de dominar a natureza”. E mais, que “a história dos esforços humanos para subjugara a natureza é também a história da subjugação do homem pelo homem”.
Ø  A razão instrumental – De que “razão” fala o filósofo? Trata-se da razão instrumental, que serve para qualquer fim, sem averiguar se é bom ou mau. Na sociedade capitalista, os interesses definem-se pelo critério da eficácia, uma vez que a organização das forças produtivas visa a atingir níveis sempre mais altos de produtividade e de competitividade. Onde a técnica é o principal, a pessoa deixa de ser fim para se tornar meio de qualquer coisa que se acha fora dela, além de que a relação do ser humano com a natureza passa a ser de domínio e não de harmonia. Na sociedade da total administração, segundo a expressão de Max Horkheimer e Theodor Adorno, os conflitos são dissimulados e a oposição desaparece.
Ø  A unidimensionalidade – Herbert Marcuse chama unidimen Max Horkheimer sionalidade à  perda da dimensão crítica, pela qual o trabalhador não percebe a exploração de que é vítima. O filósofo alerta para a distinção entre necessidades vitais e falsas necessidades, para que a satisfação dos indivíduos não se reduza a uma “euforia na infelicidade”. Assim diz ele: A maioria das necessidades comuns de descansar, distrair-se, comportar-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeia , pertence a essa categoria de falsas necessidades. Tais necessidades têm um conteúdo e uma função sociais determinados por forças externas sobre as quais o individuo não tem controle algum; o desenvolvimento e a satisfação dessas necessidades são heterônomos. Independentemente do quanto tais necessidades possam  ter se tornado do próprio indivíduo, reproduzidas e fortalecidas pelas condições de sua existências; independentemente do quanto ele se identifique com elas e se encontre em sua satisfação, elas continuam a ser o que eram de início – produtos de uma sociedade cujo interesse dominante exige repressão.
Etimologia: Heterônomo. Do grego, hetero, “diferente”, e nomos, “lei”. Aquele que é comandado por outrem, que está sujeito a uma lei exterior. O contrário de autônomo.
O que pretendemos não é negar o valor da razão instrumental, pela qual produzimos a cultura, mas recuperar o que se perde em termos de humanização quando a razão técnica prevalece sobre a razão vital. Tampouco, considerar o ser humano indefeso diante de um suposto determinismo a que não pode fugir. A questão fundamental está na reflexão moral e política sobre os fins das ações humanas no trabalho, no consumo, no lazer, nas relações afetivas, a fim de observar se estão a serviço do ser humano ou de sua alienação.
UMA “CIVILIZAÇÃO DO LAZER”? O lazer é uma criação da civilização industrial e apareceu como fenômeno de massa com características específicas que nunca existiram antes do século XX, quando a nova expressão histórica do lazer surgiu como contraponto explícito ao período de trabalho.
As reivindicações dos trabalhadores sobre o alargamento do tempo de lazer obtiveram alguns êxitos muito lentamente, tais como descanso semanal, diminuição da jornada de trabalho para oito horas, semana de cinco dias, férias. Era o início de uma nova era, que tendia a tomar contornos mais definidos com a intensificação da automação do trabalho. Estava sendo gestada a “civilização do lazer”.
A diminuição da jornada de trabalho criou o tempo liberado, que não pode ser confundido com o  tempo livre, pois aquele é gasto com transporte, obrigações familiares, sociais, políticas ou religiosas. O tempo propriamente livre, de lazer, é aquele que sobra após a realização de todas as funções que exigem obrigatoriedade.
O que é fazer então? O sociólogo francês Dumazedier diz: [...] o lazer é um conjunto de ocupações às quais o individuo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.
Há, portanto, três funções solidárias no lazer:
·      Descanso e, em decorrência, liberação da fadiga;
·      Divertimento, recreação, entretenimento e, consequentemente, uma complementação que dá equilíbrio psicológico, compensado o esforço no trabalho. O lazer oferece a oportunidade de expandirmos nossa vida imaginária, por meio da mudança de lugar, de ambiente, de ritmo, quer seja em viagens, jogos ou esportes ou ainda por atividades que privilegiam a ficção, o sonho, a crítica, como cinema, teatro, literatura, shows;
·      Participação social mais livre e, com isso, possibilidade de desenvolvimento pessoal; procura desinteressada de amigos, de aprendizagem voluntária, o que estimula a sensibilidade e a razão e facilita condutas inovadoras.
De tudo isso, fica claro que o lazer ativo não é um simples “deixar passar o tempo livre”, mas aquele no qual a pessoa pode escolher algo prazeroso e que ao mesmo tempo a modifique como ser humano. Não se pretende com isso prescrever antecipadamente o que seria uma boa ou má ocupação do tempo livre: qualquer tipo de lazer é ativo quando somos seletivos, sensíveis aos estímulos recebidos e compreendemos de modo crítico o que vemos, sentimos e apreciamos. Por exemplo, suas pessoas assistem ao mesmo filme podem ser ativas ou passivas, dependendo da maneira pela qual se posicionam para comparar, apreciar, julgar e decidir por si mesmas, independentemente de modismos ou de propagandas massificantes.
Ø Obstáculos de lazer – O tempo de lazer tem adquirido importância cada vez maior, configurando-se como um dos grandes desafios do terceiro milênio. Essa é a aposta do sociólogo italiano Domenico de Mais, que lembra como foi terrível o longo período em que o capitalismo amontoou os empregados em fábricas, segregando de modo brutal trabalho e vida. Segundo ele, nossa sociedade teria todas as condições de realizar o sonho do não trabalho e do ócio criativo, isto é, do ocupar-se com atividades sem premência de tempo e que permitissem “a elevação do espírito e a produção da ideias”. Seria esse um sonho possível?
O problema está em saber se a indústria cultural propicia alternativas de escolhas ou se as cidades oferecem infraestrutura que garanta aos mais pobres a ocupação do seu tempo livre em atividades gratuitas ou menos dispendiosas: lugares onde ouvir música, praças para passeios, clubes populares, locais para a prática de esportes e de integração social espontânea. Essas restrições reduzem as possibilidades de lazer ativo, não alienado.
Além disso, bem sabemos estar distante a possibilidade de expandir o tempo de lazer. Vejamos alguns motivos: as empresas têm feito reestruturações severas terceirizando tarefas, o que significa a perda de benefícios antes conquistados; os programas de enxugamento do quadro de pessoal sobrecarrega os funcionários que, sob o risco de desemprego, sentem-se obrigados a jornadas fatigantes, em nome das metas de produtividade estabelecidas pela empresa; o teletrabalho, apesar da aparência confortável de atividade em domicílio, confunde horários de trabalho e momentos de lazer, com evidente prejuízo deste último; a flexibilização do contrato de trabalho obriga o trabalhador a assumir  vários empregos de “jornadas curtas”, como é o caso dos professores. Além de tudo isso, os sindicatos, defensores dos interesses dos trabalhadores, têm se enfraquecido.
Será possível reverter esse quadro, se a anunciada mecanização e a robotização até agora não cumpriram as esperanças do tempo de lazer dilatado?
A SOCIEDADE PÓS-MODERNA: O HIPERCONSUMO – Nem todos os pensadores, porém, encaram o fenômeno contemporâneo do consumo e do lazer de massas como necessariamente alienados e alienantes, conforme preconizaram os frankfurtianos.
O filósofo francês Gilles Lipovetsky, por exemplo, prefere não demonizar o consumo, mas aceitá-lo como fenômeno do nosso tempo. Ele observa que, no final dos anos 70, devido às técnicas de  marketing e de preços mais baixos, os bens se tornaram acessíveis a um maior número de pessoas, inclusive para as de menor poder aquisitivo, ávidas de comprar nos grandes magazines. Dai surgiu uma nova fase de consumo mais intimista e personalizada. Por destacar no consumo o processo de personalização, Lipovetsky recusa-se a aplicar à sociedade pós-moderna o conceito marcuseano de inidimensionalidade. Também critica Foucoult, identificando que houve uma redução progressiva do progresso disciplinar no trabalho.
Para saber mais: O pensamento pós-moderno é representado por diversos filósofos com diferentes enfoques. Alguns consideram que os valores centrais da modernidade encontram-se esgotados (os pós-modernos, como Jean-François Lyotard). Outros acreditam que o projeto moderno não se esgotou (os neomodernos, como Habermas). Mas todos compartilham a ideia de que nas últimas décadas do século XX as transformações ocorridas na economia, na tecnologia e consequentemente no modo de viver exigem novos modos de pensar.
Para , Lipovetsky, “no rastro da extrema diversificação da oferta, da democratização do conforto e dos lazeres”, o acesso às novidades mercantis tornou-se mais comum, diluindo-se de certo modo as regulações de classe. Além disso, os consumidores estão “mais interessados em qualidade de vida, comunicação e de saúde, têm melhores condições de fazer uma escolha entre diferentes propostas da oferta”, determinando que o consumo ordene-se “cada dia um pouco mais em função de fins, de gostos e de critérios individuais”. Nessa fase a mercantilização das necessidades deixa de ser institucionalizada e torna-se mais subjetiva e emocional.
Apesar de considerar o consumidor mais crítico, Lipovetsky reconhece o poder massificante da publicidade e os malefícios do hiperconsumismo, entendido como a ilusão de que a mercadoria nos garantiria a felicidade. Ao contrário, o que nos preenche a vida é o que permite ao ser humano “inventar-se a si mesmo e inventar coisas”. O risco é deixar que o consumo se converta no sentido principal da vida das pessoas.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman não é tão otimista e diz que o consumismo “aposta na irracionalidade dos consumidores, e não em suas estimativas sóbrias e bem informadas”. Mesmo porque “a sociedade do consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua a não satisfação de seus membros”. Basta observar como os objetos de desejo são facilmente descartáveis para que um novo desejo imperioso se imponha.
Para refletir: Em uma das exposições do Fórum Universal da Cultura de 2004-Barcelona, havia essa informação: “A riqueza cresce, mas a pobreza também. Quinhentas companhias controlam 70% do comércio mundial e 30% do PIB mundial. Todas estão nos EUA, na Europa e no Japão”. Evista Fórum 2004, 9 mai/26 set. 2004, p. 21)
Quais as consequências dessa situação para o trabalho, o consumo e o lazer?  PARA ONDE VAMOS?
As maneiras de trabalhar e consumir mudam conforme a época e o lugar, assim como são variadas as concepções que temos sobre essas atividades humanas. Nas últimas décadas, porém, presenciamos transformações extremamente rápidas, que alteraram de maneira drástica nosso modo de vida.
No início do século XX, foram marcantes as iniciativas de produção em série nas linhas de montagem, com a consequente estimulação do consumo de massa, apesar dos efeitos alienantes no campo do trabalho e de consumo. Nada se compara, porém, ao impacto causado no final do milênio com a implantação da tecnologia avançada da automação, bem como da comunicação em tempo real possibilitada pela informática nas fábricas, nos escritórios e no campo.
A produção globalizada na época do hiperconsumo nos obriga a rever as críticas aos antigos modelos de alienação no trabalho e no consumo. Entretanto, no brilho  da diversificação das tarefas e das ofertas múltiplas de compras, estaríamos livres de outros modos de manipulação da nossa consciência crítica e portanto de nossas escolhas?
Tudo isso aumenta nossa responsabilidade, tanto no plano pessoal como no coletivo. Apesar dos benefícios alcançados pela nossa civilização, há um grande número de pessoas excluídas do sistema, e o desequilíbrio ecológico agrava-se a cada dia. O importante é verificar, a todo momento, em que medida as atividades do trabalho, consumo e lazer então a serviço da humanização e da sustentabilidade do planeta e quando se desviam desses objetivos principais.